Nick Mason relembra visita de Syd Barrett durante gravação de 1975

O baterista do Pink Floyd contou como o fundador da banda apareceu de surpresa nos estúdios de Abbey Road, em 1975.

O sucesso de The Dark Side of the Moon colocou o Pink Floyd em outro patamar. Ao mesmo tempo, aumentou a expectativa em torno do próximo trabalho. O desafio era encontrar um caminho para dar continuidade a um dos maiores álbuns da história do rock.

Em 1975, Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright entraram em estúdio para começar a trabalhar no novo disco. A banda tinha poucas ideias definidas e enfrentava uma mistura de cansaço e falta de inspiração. Ainda assim, algumas composições começaram a tomar forma, entre elas Wish You Were Here, Shine On You Crazy Diamond e até mesmo Dogs, que acabou ficando de fora daquele álbum e seria lançada posteriormente em Animals (1977).

Mas uma visita inesperada transformaria aquelas sessões de gravação em um dos episódios mais marcantes da história do grupo.

A visita inesperada de Syd Barrett aos estúdios de Abbey Road

Nick Mason relembra visita de Syd Barrett durante gravação de 1975

Em sua biografia, Inside Out: Minha História com o Pink Floyd, Nick Mason relembra o dia em que Syd Barrett apareceu de surpresa nos estúdios de Abbey Road, em Londres.

Fundador do Pink Floyd, Syd havia deixado a banda em 1968, depois de enfrentar problemas relacionados ao uso de drogas e à saúde mental. Seu comportamento cada vez mais imprevisível e o afastamento da realidade tornaram impossível sua permanência no grupo.

Mason conta que, inicialmente, nem sequer reconheceu o antigo companheiro.

“Eu entrei na sala de controle vindo do estúdio, e notei um sujeito grande e gordo de cabeça raspada, vestindo um casaco impermeável bege velho e surrado. Ele carregava uma sacola de plástico e tinha no rosto uma expressão bastante afável, mas vaga. A aparência dele normalmente não teria facilitado sua admissão para além da recepção do estúdio, então presumi que deveria ser amigo de um dos engenheiros. Em dado momento, David me perguntou se eu sabia quem era. Mesmo assim não consegui reconhecê-lo, e tiveram que me dizer. Era Syd. Mais de vinte anos depois ainda me lembro daquela onda de confusão”.

Nick Mason ficou chocado com a transformação de Syd Barrett

Syd Barrett em 1975. Créditos Nick Mason

O reconhecimento trouxe um choque ainda maior. Mason guardava a imagem do amigo de anos anteriores, muito diferente do homem que havia acabado de entrar no estúdio.

“Fiquei chocado com a mudança física. Ainda tinha a imagem da pessoa que tinha visto pela última vez sete anos antes, quarenta quilos mais leve, com cabelo preto encaracolado e personalidade exuberante.Minha memória não era tanto a do Syd chapado que tinha saído da banda em 1968, mas muito mais a do sujeito que conhecemos quando ele veio de Cambridge para Londres, que tocava aquela Fender Esquire inconfundível com seus discos espelhados, tinha o guarda-roupas cheio de camisas desenhadas por Thea Porter e estava sempre acompanhado por sua linda namorada loira”.

O relato mostra o contraste entre o jovem músico criativo, carismático e cheio de personalidade e o homem que seus antigos companheiros encontraram naquele dia.

Syd Barrett em 1975. Créditos Nick Mason

Mason também percebeu que os problemas de Syd continuavam presentes, mesmo depois de tantos anos longe da banda.

“Agora, ele parecia ser um homem sem amigos. Sua conversa era desconexa e não muito lógica, embora, para ser justo, eu não acredite que nenhum de nós fosse especialmente articulado. Não fazia ideia do porquê de ele estar ali”.

A culpa dos integrantes do Pink Floyd

A visita também despertou sentimentos difíceis nos integrantes do Pink Floyd. Além da surpresa, havia a lembrança de tudo o que aconteceu durante o afastamento de Barrett.

“E completou. Sua chegada repentina e inesperada trouxe de volta toda uma parte da vida da banda. A culpa era um dos sentimentos. Todos tínhamos desempenhado algum papel no que havia levado Syd a seu estado atual, fosse por meio da negação, da falta de responsabilidade, da insensibilidade ou do puro egoísmo”.

O baterista chegou a imaginar o que poderia ter motivado Syd a procurar os antigos companheiros depois de tantos anos.

“É muito fácil traçar paralelos com Peter Pan retornando para encontrar a casa ainda no mesmo lugar, mas as pessoas diferentes. Será que esperava nos encontrar como éramos sete anos antes, prontos para trabalhar com ele mais uma vez?”

Syd Barrett ouviu a homenagem, mas não demonstrou interesse

A visita aconteceu durante a produção de Wish You Were Here, álbum lançado em 1975 e marcado pelo tema da ausência. A faixa-título e Shine On You Crazy Diamond são diretamente associadas à história de Syd Barrett e à sua saída do grupo.

A ironia daquele encontro foi que Syd chegou a ouvir uma das músicas que representavam justamente a homenagem dos antigos companheiros à sua história.

“Tentamos continuar a sessão de gravação, voltando a tocar a canção em que trabalhávamos (reza a lenda que era “Shine on You Crazy Diamond” — a faixa mais influenciada pela presença, ou ausência, de Syd — embora eu não tenha certeza de que era mesmo), mas todos nós ficamos um pouco perturbados com a chegada dele. Syd ouviu o playback e pedimos que fizesse um comentário. Não melembro de ele ter dado nenhuma opinião em particular, mas quando foi sugerido que tocássemos a faixa de novo, Syd perguntou qual seria o sentido daquilo, já que havíamos acabado de escutá-la”.

A resposta, aparentemente simples, reforçou o quanto Syd estava distante do contexto emocional e musical daquele encontro.

A conversa sobre televisão, geladeira e costelinhas de porco

Nick Mason também recorda uma passagem contada por Phil Taylor, que estava no estúdio naquele dia. Em determinado momento, Syd conversou com David Gilmour no refeitório de Abbey Road.

“Phil Taylor estava lá no dia da visita de Syd. Ele se viu no refeitório do Abbey Road, sentado à mesa com David e Syd. David perguntou a Syd o que ele andava fazendo. “Bem”, disse Syd, “tenho uma TV em cores e uma geladeira. Tenho umas costelinhas de porco na geladeira, mas elas acabam toda hora, então tenho que continuar comprando”. Mais tarde, Phil, saindo do estúdio em seu carro, viu Syd procurando alguém para pegar carona, mas não sabia se conseguiria dar conta da conversa e se abaixou ao passar por ele”.

O episódio das costelinhas de porco se tornou uma das histórias mais lembradas daquela visita. Enquanto os integrantes trabalhavam em um álbum profundamente ligado à ausência de Barrett, o próprio músico parecia não compreender a dimensão daquele reencontro.

Syd Barrett morreu em 2006, aos 60 anos

Depois da visita a Abbey Road, Syd Barrett voltou a viver longe dos holofotes. Mesmo afastado da música e da vida pública, continuou recebendo os royalties referentes aos direitos autorais de suas composições com o Pink Floyd.

O músico morreu em 7 de julho de 2006, aos 60 anos, em decorrência de um câncer no pâncreas. Ele também enfrentava diabetes.

A visita de Syd Barrett durante a gravação de Wish You Were Here permanece como um dos episódios mais emocionantes da trajetória do Pink Floyd. Um encontro que reuniu antigos amigos, lembranças, culpa e a difícil constatação de que algumas ausências não podem ser revertidas.