Keith Richards relembra morte da mãe: “Doris foi a me encorajar”

Em sua autobiografia “Vida”, guitarrista dos Rolling Stones conta como enfrentou a morte de Doris Richards.

Em 2007, enquanto enfrentava uma polêmica criada pela imprensa sobre uma suposta declaração de que teria cheirado cocaína misturada as cinzas do próprio pai, Keith Richards vivia um momento doloroso na vida pessoal. O guitarrista dos Rolling Stones perdeu a mãe, Doris Richards, aos 91 anos, vítima de câncer.

Keith Richards relembra morte da mãe: "Doris foi a me encorajar"
keith Richards com sua mãe em 1945. Créditos arquivos pessoais.

Em sua autobiografia, Vida, Richards relembra os últimos dias da mãe, comenta a repercussão da história envolvendo as cinzas do pai e conta como a música esteve presente na despedida.

A polêmica envolvendo as cinzas do pai

A história ganhou destaque na imprensa em 2007. Segundo Richards, um jornalista criou uma versão sensacionalista de um episódio envolvendo as cinzas de seu pai, Bert Richards, morto em 2002. O guitarrista conta que a repercussão acabou desviando a atenção de um momento delicado vivido pela família.

“Em 2007, a saúde de Doris começou a piorar rapidamente por causa de uma doença prolongada. Bert tinha morrido em 2002, mas a memória dele foi abalada antes de Doris morrer por causa de uma grande história criada na imprensa por um jornalista que alegou que eu revelara ter cheirado um pouco das cinzas do meu pai junto com uma linha de cocaína. Houve manchetes, editoriais, colunas sobre canibalismo, foi um ressurgimento daquela velha indignação puritana contra os Stones”.

Mesmo anos depois, Richards ainda recordava as manchetes e a reação provocada pela história.

“Dizem que John Humphrys perguntou ao vivo no rádio em horário nobre: “Você acha que desta vez Keith Richards foi longe demais?”. Mas o que que ele quis dizer com desta vez? Também houve artigos dizendo que aquilo era algo perfeitamente normal, que a ingestão de nossos ancestrais era algo que remontava à Antiguidade. Havia duas escolas de pensamento. Como sou macaco velho, declarei que a coisa tinha sido tirada do contexto”.

Keith Richards explica o episódio das cinzas

Acostumado às polêmicas envolvendo seu nome, o guitarrista decidiu não confirmar nem negar diretamente a história. Em sua autobiografia, ele apresenta sua versão do que realmente teria acontecido.

“Nem neguei, nem confirmei. “A verdade é que” — lia-se num memorando que escrevi para Jane Rose quando a história ameaçou fugir do controle —, “depois de guardar as cinzas do meu pai numa caixa preta por seis anos, e porque eu realmente não tinha coragem de espalhá-las, não fui até ao vento, eu finalmente resolvi plantar um carvalho-vermelho ao redor do qual eu espalharia as cinzas. Quando destampei a caixa, um pouco das cinzas dele voaram e foram parar na mesa. Eu não podia simplesmente espanar o meu pai, então eu passei o dedo nas cinzas e cheirei o resíduo. O pó retorna ao pó, o pai retorna ao filho. Ele agora está ajudando um carvalho a crescer, e tenho certeza de que teria ficado muito orgulhoso disso”.

Ruas de Dartford ganharam nomes de músicas dos Rolling Stones

Enquanto Doris estava internada, outro acontecimento curioso envolveu a família Richards. A Câmara Municipal de Dartford, cidade onde Keith cresceu, começou a homenagear os Rolling Stones ao nomear ruas de um novo loteamento próximo à antiga casa da família, na Spielman Road.

Entre os nomes escolhidos estavam Sympathy Street, Dandelion Row e Ruby Tuesday Drive, referências a músicas da banda.

Richards recorda a coincidência e não deixa de fazer uma observação irônica sobre a relação dos Stones com a cidade.

“Enquanto Doris morria no hospital, a câmara municipal de Dartford estava nomeando as ruas de um novo loteamento próximo à nossa antiga casa na Spielman Road — Sympathy Street, Dandelion Row, Ruby Tuesday Drive. Tudo isso no curso de uma vida: ruas nomeadas em nossa homenagem alguns anos depois de eles terem nos empurrado contra a parede. Talvez os vereadores tenham mudado de ideia novamente depois do incidente com as cinzas do meu pai. Eu não fui até lá conferir”.

A despedida de Keith Richards ao lado da mãe

Durante os últimos dias de Doris no hospital, Keith contou com o apoio dos filhos para compreender que a despedida estava próxima. Apesar da doença, ele recorda que a mãe ainda mantinha sua personalidade forte e seu bom humor.

Em um dos momentos mais emocionantes relatados no livro, sua filha Angela o incentivou a pegar o violão e tocar para a avó.

“No hospital, minha mãe estava muito atrevidinha com os médicos e tudo mais, mas a verdade é que ela estava perdendo as forças. Angela me disse: “Nós sabemos que ela está indo embora, papai. Todos nós sabemos disso. É uma questão de dias. Pegue o violão e toque para ela”. Então, na nossa última noite juntos, eu peguei o violão, sentei aos pés da cama dela e perguntei: “Como é que a senhorita está, mãe?”.

Ela respondeu: “Com a morfina até que não está tão mal”. Ela me perguntou onde eu estava hospedado. Eu disse que estava no hotel Claridge. Ela disse: “Nos melhoramos um pouco de vida, não é?”. Estava entrando e saindo desse estado de torpor causado pela morfina, e eu toquei alguns trechos de “Malagueña” para ela, e outras coisas que ela conhecia, coisas que eu tocava desde criança. Ela acabou dormindo”.

A última observação de Doris sobre o violão

Na manhã seguinte, Keith teve uma surpresa. Sherry, sua assistente, que acompanhava Doris diariamente no hospital, contou que a mãe havia comentado sobre a apresentação da noite anterior.

“Minha assistente Sherry, que tinha cuidado dela com devoção e amor, foi visitá-la como fazia todas as manhãs e perguntou: “Você ouviu Keith tocando para você ontem à noite?”. E Doris respondeu: “Sim, o violão estava um pouco desafinado”. Minha mãe era assim. Mas eu tenho de tirar o chapéu para ela. Ela tinha um ouvido incrível e uma percepção musical tremenda, o que ela herdou dos pais, Emma e Gus, que foram os primeiros a me ensinar “Malagueña”.

A resposta mostra que, mesmo debilitada, Doris continuava atenta a música e não perdia o senso crítico. Afinal, Para Keith, ela também foi uma das pessoas mais importantes no início de sua trajetória musical.

Doris Richards foi uma das primeiras incentivadoras do guitarrista

Em Vida, Keith destaca que a mãe teve papel fundamental em sua decisão de seguir carreira na música. Uma lembrança da infância ilustra como Doris percebeu seu talento ainda nos primeiros passos com o violão.

“Doris foi a primeira pessoa a me encorajar. Eu me lembro de um dia quando ela chegou do trabalho e eu estava sentado no alto da escada tocando “Malagueña”. Ela foi até a cozinha, mexeu em algumas panelas e começou a cantarolar comigo. Então apareceu no pé da escada e disse: “É você? Eu pensei que fosse o rádio”. Dois compassos de “Malagueña” e eu ganhei a velha”. Conforme lembra.

Doris Richards morreu em 21 de abril de 2007, em um hospital de Londres, aos 91 anos. Para Keith Richards, a despedida também foi uma oportunidade de recordar a importância da mãe em sua formação pessoal e musical.