Renato Russo falou sobre “A Tempestade” 15 dias antes de morrer
Em sua última fase de vida, Renato falou sobre o disco, a banda e seus planos para o futuro.
Quinze dias antes de morrer, em 11 de outubro de 1996, Renato Russo concedeu uma entrevista ao jornalista Ricardo Alexandre, do jornal O Estado de S. Paulo. A conversa foi publicada em 26 de setembro e teve como tema o lançamento de A Tempestade (Ou o Livro dos Dias), último álbum de estúdio da Legião Urbana com o cantor. Essa e outras entrevistas estão compiladas no livro, “Conversações com Renato Russo” .
A banda estava longe dos palcos e dos estúdios havia quase três anos. Nesse período, Renato também trabalhou em projetos solo. A gravação do novo álbum foi feita às pressas, enquanto o cantor enfrentava complicações de saúde causadas pela AIDS.
Na época, o estado de saúde de Renato ainda não era conhecido pelo grande público. Mesmo assim, informações sobre sua condição já circulavam entre jornalistas e pessoas do meio musical.
Durante a entrevista, porém, o assunto não foi abordado. Ricardo Alexandre preferiu falar sobre o novo disco e perguntou o que havia de diferente em relação aos trabalhos anteriores da banda.
Renato Russo explicou as mudanças no novo álbum
Renato destacou que A Tempestade tinha uma sonoridade mais pop. Também revelou que a banda havia gravado 25 músicas, mas decidiu não lançar um álbum duplo por questões comerciais.
“A Tempestade ficou mais pop. A gente gravou 25 canções, mas daí nos tocamos da inviabilidade de, num último trabalho de um contrato, lançar um álbum-duplo. Pensamos em fazer um disco dividindo em dois – exonera mais, mas disco-duplo ninguém compra, porque é muito caro”.
Ricardo Alexandre perguntou se Renato esperava que alguma música do álbum se tornasse um grande sucesso.
O cantor respondeu que não tinha como prever a repercussão de seus trabalhos. Como exemplo, citou o bom desempenho de seu disco em italiano e os problemas de distribuição enfrentados por Stonewall Celebration Concert.
“Eu não tenho nem idéia. Eu não sabia, por exemplo, que meu CD em italiano poderia chegar à platina-dupla — já está chegando a 450 mil cópias. Nunca imaginei! Ao passo que o Stonewall eu pensei que fosse ter um desempenho melhor, mas houve problemas de distribuição, ninguém encontrava o CD nas lojas e não sei o quê. Aí formamos uma equipe para trabalhar junto à gravadora. A Odeon trabalha muito como uma independente inglesa. E a gravadora mais simpática, você vê pelo cast — Paralamas, Marina, a gente, Marisa Monte. Todo mundo com liberdade para fazer o que quer, sabe? É outra coisa”.
O cantor não gostava de videoclipes
A Legião Urbana sempre manteve uma relação reservada com a imprensa. Entrevistas e sessões de fotos não eram frequentes. Renato também não gostava de participar de videoclipes.
Questionado sobre o assunto, respondeu de maneira bem-humorada:
“Claro que não, é que nós levamos nossa displicência muito a sério! Então, não me pega para fazer clipe que eu não vou fazer, me deixa quieto em casa”.
Na sequência, explicou que sua preferência sempre foi pela música. Compor, gravar e trabalhar na produção dos discos eram suas principais prioridades.
“Eu não gosto é de nada! Eu gosto é de compor, entrar no estúdio, encontrar os rapazes, trabalhar a obra, pensar na capa e pronto, coloca o disco na loja. A gente é artista de gravação. O Lou Reed falou isso: “I’m a recording artist”, não é um poeta. Ele é um artista que grava e essa é a visão que eu tenho da Legião”.
A conversa também abordou o perfil fechado da banda. Naquele álbum, por exemplo, o grupo decidiu trabalhar sem um produtor externo.
“A Legião sempre se caracterizou por ser meio que uma turma fechada — desta vez nem produtor vocês chamaram — e os discos acabam”
Ricardo então perguntou se Renato não tinha vontade de entrar no estúdio para fazer algo diferente, como aconteceu com Pet Sounds, clássico dos Beach Boys.
O cantor respondeu:
“Todo próximo disco da Legião vai ser o nosso Pet Sounds, mas acaba não sendo. Acho que cada trabalho de todo artista é para ser o Pet Sounds, mas não é, entende? E também, a gente já tem as nossas formulinhas.
Renato Russo pensava em deixar o Brasil
No fim da entrevista, Ricardo Alexandre perguntou se o cantor tinha planos para algum novo projeto solo.
Renato revelou que estava cansado de falar sobre o álbum e que pensava em deixar o Brasil por alguns meses. Seus planos incluíam passar um período em São Francisco e depois seguir para a Nova Zelândia.
“Não. Eu estou exausto de ficar falando deste disco, não sei o que vai acontecer. Provavelmente, eu vou sair do país, vou embora para São Francisco, ficar lá uns dois meses e de lá vou para a Nova Zelândia”.
O cantor também comentou os acontecimentos que marcaram o Brasil naquele ano. Entre eles, citou a polêmica envolvendo Paulinho da Viola, a morte dos integrantes dos Mamonas Assassinas, as enchentes e a chacina no Pará.
Renato demonstrou especialmente sua tristeza com a morte dos integrantes dos Mamonas. Também criticou a falta de reconhecimento da importância cultural do grupo.
“Porque, este ano, no Brasil, primeiro o cristal se quebrou (refere-se à polêmica financeira envolvendo o Paulinho da Viola na última passagem de ano carioca) e a magia se acabou. Logo depois teve o acidente com os Mamonas. Eu estava muito ligado ao João (Augusto, diretor artístico da EMI), a gente estava trabalhando no nosso projeto e ele ficou arrasado, todo mundo ficou arrasado. Eu fiquei muito surpreso que ninguém tenha notado a importância deles como evento cultural brasileiro. E a mesma coisa e que morrer algum dos Secos & Molhados e ninguém falar nada, só falar da multidão no enterro. Foi horrível, de qualquer forma. Aí, vieram as enchentes, aí a chacina no Pará. E este disco novo, dizem, está tão melancólico, tão triste, tão não-sei-o-quê, que está perfeito para todos esses problemas que a gente está tendo de enfrentar.”
