Yes: 50 anos do álbum “Tales from Topographic Oceans”, rock com espiritualidade.

Em 1973, o Yes unia rock progressivo e new age em um álbum conceitual de apenas quatro músicas com a temática de espiritualidade oriental.

Sandro Abecassis

A New Age foi um movimento que surgiu nos anos 60, sendo uma prática de grupos voltados para a espiritualidade, assim como um gênero musical. Unindo harpas, violões, sintetizadores, sons da natureza em canções relaxantes.

Hoje, existem inúmeros, canais, podcasts que usam a New Age para meditar, fazer yoga, dormir, principalmente com frequências de hertz chegando a regiões cerebrais em que canções normais não alcançam.

E unir rock progressivo com new age é possível? Sim! O Yes, banda britânica fez uma álbum inteiro, há exatos 50 anos, em 1973, com apenas 4 canções:Tales from Topographic Oceans”.

 

A ideia surgiu após Jon Anderson ter sido apresentado ao guru indiano, Paramahansa Yoganand e consequentemente seu livro, “Autobiografia de um Yogi”. 

A partir dali Anderson e Steve Howe começaram a se aprofundar mais na filosofia e religião oriental, e convenceram os outros integrantes da banda a produzirem um álbum inteiro sobre o tema. 

No entanto, o Yes já tinha um pé no autoconhecimento e espiritualidade presente em álbuns anteriores.

Duas canções de cada lado

Tales from Topographic Oceans”, tem quatro canções somente, cada uma com 20 minutos. Algo inpesável nos dias atuais, onde uma maioria já se habituou a ouvir 30 segundo de uma música com dancinha no Tik Tok.

As faixas:  “The Revealing Science of God (Dance of the Dawn)”, “The Remembering (High the Memory)”, “The Ancient (Giants Under the Sun)”, “Ritual (Nous Sommes du Soleil)”.

A obra marca a entrada de Allan White como baterista e ao mesmo, segundo comentários da época, a concepção espiritualista do álbum foi o motivo da saída de Rick Wakeman. 

Fãs e criticos músicais acharam “Tales’, excessivo e exagerado pelo tema do autoconhecimento e espiritualidade ter tomado conta do disco inteiro. 

Até porque a banda ainda colhia frutos do álbum anterior, “Close to the Edge”, considerado uma obra-prima, cada instrumento das músicas deste disco parece tocar uma música diferente na mesma canção, é genial.

“Tales” está situado em uma época onde o assunto, “nova era’, dominava, principalmente com o surgimento de diversos grupos espiritualistas nos mais diversos segmentos da arte. 

Então vamos as canções:

The Revealing Science of God (Dance of the Dawn)”

A canção que abre o disco, traduzindo o título, “A Ciência Reveladora de Deus (Dança do Amanhecer)”, realmente é uma abertura para uma inspiração astral e espiritual.

“O que aconteceu com essa música que conhecíamos tão bem? A palavra dada e firmada, por momentos dentro do feitiço. Eu devo ter esperado toda a minha vida por este momento, momento”, Diz um trecho da letra. 

O guitarrista Steve Howe revelou em uma entrevista, que o trabalho no solo e harmonias desta canção foi um dos melhores já compostos por ele. 

A música vai da quietude a explosão selvagem, sem esquecer das reflexões sobre existência e condição humana. 

“The Remembering (High the Memory)”

Lembrando, “Tales” é um álbum para ouvir inteiro, afinal cada faixa se completa. Por isso, aguarde o ínicio um pouco mais lento desta segunda canção.

“The Remembering” traz um tom medieval do meio para fim, em um trabalho excepcional de violão, sintetizadores, baixo e bateria. E voltamos aquela característica do Yes, em harmonizar instrumentos que parecem tocar cada um uma  música diferente na mesma canção.

Imaginem sintetizar tudo isso com a ainda pouca tecnologia dos anos 70, simplesmente talento. 

“The Ancient (Giants Under the Sun)”

‘The Ancient”, é mais ousada música do Yes! Uma guitarra em slide lembrando até os repentes nordestinos que foram inspirados na musicalidade arabe, um baixo em uma marcação agitada lembrando que a música ainda está ali, e a percussão e sintetizadores trazendo os vocais de Anderson saudando o Sol por diferentes nomes de acordo com cada civilização. 

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“Ritual (Nous Sommes du Soleil)”.

A canção que fecha o álbum, diz que “nós somos o sol”, note, a presença do astro rei como fonte de grandeza e inspiração para espiritualidade, revelando presença em todas as composições do disco. 

Em “Ritual”, o Yes! volta um pouco a essência de músicas de produções anteriores. 

Um destaque nesta canção é a bateria de Allan White, recheada de viradas, e execuções solos, com orquestra, vocalizações e efeitos sonoros. 

Além disso, “Ritual” muda no decorrer dos seus 20 minutos, “Tales” é para poucos e para ouvir de preferência em uma manhã ensolarada. 

Tales from Topographic Oceans”, realmente é controverso, tanto que marca a saída de Rick Wakemann, que voltaria somente em 1977. 

Note que o álbum conceitual do Yes! não estava isolado, afinal, no mesmo ano o Pink Floyd lançaria, “The Dark Side Of The Moon”, e o Gênesis, “Selling England By the Pound”. 

Portanto, os voos sonoros-espirituais de Anderson não estavam nada solitários, apesar de exagerados.

Por fim, no Brasil, Raul Seixas e Tim Maia tomaram rumos parecidos em algumas produções, mas esta é história para um outro artigo. 

Ouça o álbum:

O Yes ainda está na ativa, inclusive a banda lançou, “Mirror To The Sky” em março deste ano, um álbum de inéditas que trouxe renovação para banda, segundo Steve Howe: “como o YES fez nos anos setenta de um álbum para outro, estamos crescendo e seguindo em frente. Anos depois, o YES costumava continuar, mas depois não fazia a próxima coisa. Este álbum é uma demonstração de nosso crescimento e construção novamente.”

Ouça o novo trabalho: