The Beatles: cartas de Stuart contam detalhes da época de Hamburgo.

 

As correspondências datam o período imediatamente após Stuart Sutcliffe conhecer Astrid Kirchherr.

Astrid Kirchherr, Klaus Voormann e Jurge Volmer se tornaram grandes amigos dos Beatles logo depois que os conheceram em Hamburgo. O filme “Os cinco rapazes de Liverpool”, do começo dos anos 90, mostra esta relação, principalmente com o foco principal, a paixão entre Stuart Sutcliffe e Astrid.

A amizade começou quando Klaus Voormann, que havia brigado com sua namorada Astrid Kirchherr por volta do dia 20 de outubro de 1960, quando saiu para caminhar pela zona portuaria da Grosse Freiheit e acabou atraindo pelo som do rock and roll que vinha dos inferninhos da região. Acabou entrando no Kaiserkeller e assistiu o final da apresentação do Rory Storm And The Hurricanes, e logo depois viu os Beatles. 

“Stuart foi o primeiro a aparecer. Seu cabelo estava arrumado em um topete muito alto e ele usava óculos escuros, então eu pensei. “Por que ele está usando óculos escuros em um porão?”. Mas foi uma entrada brilhante, de todos. Eles tocaram “Sweet Little Sixteen”, com John no vocal, aquilo me impressionou, ainda mais que Rory. George foi ao microfone e falou em alemão. Paul também falou algumas palavras em alemão e os outros faziam piadas e pequenos anúncios entre músicas”. 

Klaus após apresentação voltou para a casa de Astrid Kirchherr e falou o que tinha visto. “Você tem que ver aquilo é simplesmente fantástico, nunca vi nada igual”. Astrid na época tinha 22 anos e era assistente de fotografia de Reinhart Wolf. Jurgen, Klaus e Astrid, os três eram ligados as artes. E um detalhe é que como foram crianças que cresceram durante a segunda guerra, e viveram toda a dificuldade da reconstrução da Alemanha com o fim do conflito, abominavam tudo o que o país tinha a oferecer, e buscavam na cultura francesa o seu estilo de vestir, e o famoso corte de cabelo ao estilo Cézar, que também iria influenciar os Beatles. 

Começa uma amizade.

Na noite seguinte, os três foram ao Kaiserkeller, sentaram-se em uma mesa deslocados e assistiram a apresentação, em meio aos arruaceiros do local. Astrid quase foi embora, como esta no livro Tune In. Primeiro eu vi George, depois Paul, depois John. Pete estava ao fundo e mal dava para ver ele. De repente, descobri um garoto no canto, e era Stuart. Ele nem se mexia em comparação com os outros, que pulavam e cantavam sem parar. Ele parecia delicado, eu me apaixonei por ele a primeira vista”. 

Klaus, Jurgen e Astrid se aproximaram da banda após o show. Quem falava melhor inglês era Klaus, e o contato deles era sempre com Stuart. Na conversa John chegou a mostrar um rascunho de um desenho para Klaus dizendo que era a capa de um disco. Os Beatles chamavam os novos amigos de “Krauts”, mas Stuart também começava a mostrar interesse por Astrid, que passaram a frequentar o Kaiserkeller todas as noites. 

O livro, The Beatles – Tune In escrito por Mark Lewinsohn, também revela detalhes que talvez poucos fãs da banda saibam, como por exemplo as cartas que Stuart enviou para sua ex-namorada Susan Williams em Liverpool. Na correspondência ele conta sobre seu futuro, os novos amigos e a famosa sessão de fotos que Astrid fez dele. Além dos sentimentos que ela nutria por Paul, George e Pete. 

Leia:

Eu decidi que, definitivamente, sairei da banda no começo de janeiro. Minha curiosidade está saciada, pelo menos no que diz respeito ao rock’n’roll.

Recentemente, fiz uma amizade maravilhosa com três jovens artistas daqui, uma garota e dois garotos. No entanto, o que me intriga é o fato de que eles me encontraram, em vez de eu encontrá-los. Eles pareciam boêmios típicos, usando jaquetas de camurça “de verdade” e jeans, e entraram no clube, cerca de uma semana atrás… Eles me perguntaram por que eu estava tocando em uma banda de rock, já que eu obviamente não fazia o tipo. Lá estava eu, me sentindo como o integrante de aparência mais insípida do grupo, ouvindo aquelas pessoas dizendo como eu parecia superior – mesmo estando ao lado do grande Romeu John Lennon e seus dois comparsas robustos, Paul e George, os Casanovas de Hamburgo!

E continuou.

‘Um pouco embriagado por seus elogios, eu fui instigado a mostrar a eles alguns dos desenhos que eu tinha feito na minha estadia… a garota achou que eu era o mais bonito do grupo e implorou para que eu a deixasse me fotografar, e ela fez isso hoje. Eu tive tanta vergonha do prazer que senti, do desprezo que senti de meus belos companheiros do rock – eles que, ao meu lado, tinham comentado, unanimemente, sobre a beleza única dela, enquanto eu, arrogantemente satisfeito, sabia do desprezo que ela sentia por eles… De certa forma, é como se tudo isso fosse um sonho..”

Em uma segunda carta Stuart revela a nova paixão. “Descobri que a amo muito…mesmo assim, depois de amanhã saberei com certeza, pois, após um dia inteiro na companhia dela, algo deve acontecer.”

E aconteceu, os dois começaram a namorar, e Kirchherr presenteou Stuart com a famosa foto em autorretrato com o galho de árvore, com os dizeres em inglês. Sinto muito por nunca conseguir falar nada para você”. Palavras ensinadas por Klaus e Jurgen, já que ela não falava inglês. Aliás, Klaus ficou um tempo ressentido, contudo mais tarde revelou um sentimento de desapego, “Eu me senti feliz por ela ter encontrado Stuart, como um irmão fica quando sua irmã finalmente acha um namorado”. 

Ciúmes de Astrid. 

Paul tinha ciúmes de Astrid, principalmente porque John também passou a ter interesse por Astrid, pelo fato de que ela era artística, atraente, culta, intelectual, e tinha seu próprio carro, um fusca conversível. McCartney revelou o sentimento também no livro Tune IN. “Nós irritava, nos deixava louco, que ela não tinha se apaixonado por nenhum de nós. E era algo que a banda não tinha visto até então”. Outro detalhe Paul passou a ter um ódio de Stuart, afinal ele já era mais próximo de John Lennon, e agora tinha conquistado a amizade de três amigos intelectuais. 

Na publicação, Astrid Kirrchherr revelou um ranking de como gostava dos Beatles. “Em ordem eu gostava de Stuart, John, George, Pete e Paul. Eu gostava de Pete, mas era tão tímido que era fácil esquecê-lo. Ele estava por conta própria. Paul era tão “Legal” que não tinha como chegar perto dele. Ele era um ótimo diplomata: tinha que ser legal e tranquilo. Eu nunca tive um relacionamento próximo com Paul, não da mesma forma que tinha com John e George”. 

Em uma carta de Stuart enviada ao amigo Rod Murray, o baixista revelou sobre o sentimento da banda em relação a McCartney. O engraçado é que Paul acabou sendo a ovelha negra da viagem. Todo mundo o odeia e eu só sinto pena dele.”

Uma outra curiosidade sobre Stuart, veio através de Tony Sheridan, que refletia exatamente o que o músico representava para a banda. “Stuart podia ser bonito, mas o cara não sabia tocar baixo nem que a vida dele dependesse disto. Ele era 90% imagem e o máximo aceitável disto é 50%, porque os outros 50% precisam ser talento musical”.

Para conhecer estas e outras histórias, siga o perfil da Nave Criativa no Google Notícias.