Por que John Lennon imitava pessoas com deficiência nos palcos?
Antes de se tornar um rockstar com os Beatles, John Lennon já chamava atenção por atitudes que hoje seriam amplamente criticadas. Entre elas, uma “performance” recorrente nos palcos: imitar pessoas com deformidades físicas — algo que, na época, gerava tanto risos quanto desconforto.
O contexto: Liverpool no pós-guerra
Em 1957, Lennon dava seus primeiros passos na música com os Quarrymen, banda formada durante a onda do skiffle, um estilo popular no Reino Unido que competia com o rock. Em meio a apresentações improvisadas — algumas até vaiadas por incluírem covers de Elvis Presley —, o jovem músico vivia intensamente as ruas de Liverpool.
Foi nesse período que ele teve um choque visual e social. A cidade ainda carregava marcas profundas das duas guerras mundiais: havia um número significativo de pessoas com deficiências físicas, resultado de ferimentos de guerra, precariedade médica e condições de vida difíceis. Lennon, que até então não havia se atentado a essa realidade, passou a notar essas figuras com frequência.
A origem da “obsessão”
Segundo relatos do biografo Mark Lewinsohn no livro “Tune IN”, a reação inicial de Lennon foi de estranhamento — seguida por riso. Ele descreveu cenas de homens com deformidades vendendo jornais nas ruas, o que o impactou profundamente. Esse contato constante acabou se transformando em uma espécie de obsessão comportamental.

Lennon passou a incorporar essas imagens em seu humor. Ele contorcia o rosto, alterava a voz e simulava dificuldades motoras — tanto nas ruas quanto no palco. Em apresentações, esse comportamento surgia de forma espontânea, misturado a sua personalidade irreverente e provocadora.
Humor, provocação e insegurança
Esse tipo de encenação não era apenas uma tentativa de fazer rir. Para Lennon, funcionava também como uma válvula de escape emocional. Ele recorria a essas imitações em momentos de insegurança, constrangimento ou quando queria ridicularizar alguém.
Ao mesmo tempo, havia um claro componente de provocação. Lennon testava limites constantemente, exagerando gestos e falas para ver até onde poderia ir — algo que se tornaria uma marca de sua personalidade pública.
Uma época de linguagem e atitudes diferentes
É importante entender o contexto social dos anos 1950. Termos e comportamentos que hoje são considerados ofensivos eram amplamente normalizados na cultura popular. Piadas envolvendo minorias — incluindo pessoas com deficiência, negros, judeus e homossexuais — eram comuns em publicações e no humor da época.
Como por exemplo, chamar negros de “wogs” ou “coons”, judeus de “Yids”, homossexuais de “queers” e “poofs”, pessoas com síndrome de Down de “mongols” ou “mongies”.
Isso não torna o comportamento aceitável sob a ótica atual, mas ajuda a explicar por que, em muitos casos, as atitudes de Lennon acabavam recebidas com risos, e não com reprovação imediata.
Mito ou influência?
Alguns fãs e estudiosos chegaram a sugerir que essas imitações tinham inspiração em Gene Vincent, ídolo de Lennon que tinha uma deficiência na perna e se apresentava mancando no palco. No entanto, essa teoria não se sustenta completamente. Embora Vincent tenha influenciado Lennon musicalmente, o comportamento do britânico já existia antes desse contato direto. E então, você sabia desta história? Deixe nos comentários.