Kurt Cobain usou “In Bloom” para atacar machismo e homofobia
Faixa do Nirvana em Nevermind ironiza homens machistas e pessoas que cantavam suas músicas sem entender o significado das letras.
Kurt Cobain nunca escondeu seu desprezo por pessoas que demonstravam intolerância contra quem era diferente. Em “In Bloom”, do clássico Nevermind, o vocalista do Nirvana transformou esse sentimento em uma crítica direta ao machismo, à homofobia e ao comportamento abusivo.

A música ainda ganhou um clipe que reforçou a provocação. Nele, Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl aparecem vestidos de terno e também de vestido, em uma paródia dos antigos programas de variedades da televisão americana.
Kurt Cobain escreveu “In Bloom” como uma provocação
Criado em Aberdeen, no estado de Washington, Cobain conviveu desde cedo com pessoas que tinham pouca tolerância com quem fugia dos padrões.
Em entrevista à Melody Maker, em 1992, o músico contou que chegou a pensar que poderia ser homossexual porque não se identificava com os comportamentos considerados tradicionais entre adolescentes.
“Durante muito tempo, pensei que poderia ser homossexual, porque não gostava do tipo de garota líder de torcida nem queria andar com os garotos atletas.”
Cobain também explicou por que preferia ficar isolado.
“Escolhi viver como um recluso. Não andava com mais ninguém porque não conseguia suportar a estupidez deles.” Conforme lembra.
A postura ajudou a formar uma das características mais marcantes de suas letras: a capacidade de transformar desconforto, ironia e crítica social em músicas que também funcionavam como grandes canções pop.
A letra de “In Bloom” também critica quem não entende o Nirvana
Cobain sabia que muitas pessoas ouviriam as músicas do Nirvana sem necessariamente compreender o que elas queriam dizer.
Por isso, “In Bloom” traz um refrão extremamente fácil de cantar. A ironia está justamente no fato de o público cantar uma letra sobre pessoas que cantam sem entender o significado.
“Ele é aquele que gosta de todas as músicas bonitas e gosta de cantar junto, mas não sabe o que isso significa.”
A frase se tornou uma das mais conhecidas da música e resume boa parte da provocação de Cobain.
O Nirvana havia conquistado um público muito maior com Nevermind, mas parte dessas pessoas não tinha necessariamente ligação com a cena alternativa que a banda representava.
O clipe colocou o Nirvana de vestidos para provocar
A provocação ganhou uma dimensão visual no videoclipe de “In Bloom”.
Dirigido por Kevin Kerslake, que também trabalhou nos vídeos de “Sliver” e “Come As You Are”, o clipe foi inspirado nos antigos programas de variedades da televisão americana, especialmente The Ed Sullivan Show.
A banda aparece inicialmente em um ambiente que imita os programas dos anos 1950. Um apresentador exageradamente empolgado anuncia o Nirvana, mas até pronuncia o nome da banda de maneira errada.
Em diferentes versões do vídeo, Cobain, Novoselic e Grohl aparecem de terno e também usando vestidos.
A escolha não era apenas uma brincadeira. Era uma provocação direta ao público homofóbico e aos estereótipos de masculinidade que Cobain criticava.
O apresentador chega a chamar os integrantes de “rapazes perfeitamente corretos e decentes”.
Depois que a banda destrói o cenário, ele mantém o tom irônico e diz:
“Vamos ouvir uma salva de palmas para esses três jovens simpáticos e bem-arrumados.”
Cobain queria exatamente esse resultado
Cobain explicou à MTV que a linguagem do vídeo tinha sido planejada para brincar com a imagem que o Nirvana havia adquirido naquele momento.
“Eu queria que ele dissesse algo sobre como somos simpáticos e bem-arrumados, como somos perfeitos.”
O músico também lembrou que a banda era vista por parte do público como um grupo de “degenerados”.
“Aquele vídeo saiu no auge da época em que éramos considerados degenerados.”
Para Cobain, o resultado ficou exatamente como imaginava.
“Ele saiu exatamente como eu queria. Não achei que conseguiríamos encontrar aquelas câmeras, mas conseguimos. Foi perfeito.”
“In Bloom” mostrou que o Nirvana também sabia fazer música pop
Apesar da energia e da agressividade associadas ao Nirvana, muitas das músicas da banda eram extremamente melódicas e fáceis de memorizar.
O baixista Krist Novoselic chegou a usar um trecho da própria música para explicar o sucesso inesperado do grupo.
“Ele é aquele que gosta das músicas bonitas. Está aí. Nevermind é um disco muito seguro.”
Novoselic comparou o álbum com trabalhos mais extremos da cena alternativa e resumiu:
“Somos apenas um pouco fora do centro. É pop. A diferença é que as guitarras são pesadas.”
A força melódica de “In Bloom” também chamou atenção antes mesmo do lançamento de Nevermind.
David Yow, vocalista do The Jesus Lizard, lembrou de ter ouvido a música ao vivo antes do lançamento do álbum.
“No dia seguinte — e isso nunca acontece — eu e Mac, nosso baterista, estávamos cantando ‘In Bloom’ dentro da van, depois de ouvi-la uma única vez ao vivo.”
Segundo Yow, a música ficou imediatamente na cabeça.
“Nós a absorvemos. Era muito contagiante.”
“In Bloom” teve quatro versões de videoclipe
A história do vídeo ainda tem uma particularidade pouco conhecida: existem quatro versões diferentes do clipe de “In Bloom”.
A primeira foi produzida em 1990 por um estudante de cinema, quando o Nirvana ainda não havia alcançado a fama mundial.
As outras três versões utilizam as mesmas imagens, mas apresentam diferentes edições. Em uma delas, a banda aparece de terno. Em outra, usa vestidos. Na versão que ficou mais conhecida pela MTV, as duas imagens acabaram combinadas.
Todas seguem a mesma proposta de parodiar os antigos programas de variedades da televisão americana.
O clipe em preto e branco também mostra uma plateia formada por garotas gritando e um apresentador que erra o nome da banda, reforçando a sátira.
A música ganhou uma nova leitura na voz de Sturgill Simpson
Décadas depois, “In Bloom” ganhou uma versão completamente diferente nas mãos do cantor country Sturgill Simpson.
Ele gravou a música para o álbum A Sailor’s Guide to Earth, lançado em 2016.
Inclusive a interpretação transforma completamente a sonoridade original do Nirvana, usando arranjos com cordas e metais.
Simpson tinha uma relação pessoal com Nevermind. O álbum fez parte de sua adolescência e marcou profundamente sua formação musical.
“Lembro que, na sétima ou oitava série, quando aquele álbum foi lançado, foi como se uma bomba explodisse no meu quarto.”
Para ele, “In Bloom” representava muito mais do que uma música de rock.
“Para mim, essa música sempre resumiu o que significa ser adolescente.”
Simpson também enxergou na composição uma mensagem sobre masculinidade.
“Acho que ela diz a um garoto que ele pode ser sensível e compassivo. Ele não precisa ser durão ou frio para ser um homem.”
Por isso, decidiu prestar sua própria homenagem ao vocalista do Nirvana.
“Eu queria fazer uma homenagem muito bonita e pura ao Kurt.”
Dave Grohl também revelou um detalhe sobre a bateria
Dave Grohl já era o baterista do Nirvana quando “In Bloom” foi gravada para Nevermind. Porém, ele atribuiu parte importante da criação da bateria ao músico que ocupava o posto antes dele, Chad Channing.
Segundo Grohl, Channing foi responsável por desenvolver as partes de bateria da música, incluindo a virada marcante depois do riff principal da guitarra.
“Quando entrei na banda, tive a honra de tocar as partes do Chad.”
A declaração foi feita quando o Nirvana entrou para o Rock and Roll Hall of Fame.
“In Bloom” virou uma das músicas mais marcantes de Nevermind
“In Bloom” foi o quarto e último single de Nevermind, lançado no fim de novembro de 1992.
Antes dela, “Smells Like Teen Spirit” havia aberto o caminho para o sucesso do álbum em setembro de 1991. Depois vieram “Come As You Are”, em março de 1992, e “Lithium”, em julho.
O sucesso do Nirvana não aconteceu imediatamente. Foram necessários alguns meses para que a banda conquistasse o grande público.
Quando isso aconteceu, Cobain percebeu uma contradição que acabou incorporada à própria música: justamente aquelas pessoas que ajudaram a transformar o Nirvana em fenômeno também poderiam não compreender aquilo que suas letras estavam dizendo.
Portanto, “In Bloom” nasceu desse paradoxo.
A música parecia simples, melódica e fácil de cantar. Mas, por trás do refrão contagiante, Kurt Cobain fazia uma crítica à intolerância, ao machismo e àqueles que consumiam sua arte sem compreender sua mensagem.
Por fim, é justamente essa combinação de melodia, ironia e provocação que mantém “In Bloom” como uma das músicas mais importantes do Nirvana.