A história de “Eclipse”, a última música do Dark Side of the Moon
Faixa que fecha o ciclo do álbum ainda esconde segredos e teorias.
O clássico álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, lançado em 1973, considerado um marco do rock progressivo — e sua faixa final, “Eclipse”, tem um papel essencial nesse legado. Composta por Roger Waters, a música surgiu já nas etapas finais da produção do disco como a peça que faltava para fechar a obra com maestria.
Uma sequência que virou padrão nas rádios
“Eclipse” aparece logo após “Brain Damage”, e ambas são tão integradas que as rádios quase sempre as tocam juntas, como se fossem uma faixa única. O encerramento de Eclipse ainda resgata versos da primeira música do álbum, “Breathe” – especialmente a emblemática linha “Tudo o que você toca, tudo o que você vê” –, criando um efeito de ciclo perfeito.
O momento mais intrigante acontece nos segundos finais da música, quando ouvimos a voz de um homem dizendo: “Não existe um lado escuro da lua, na verdade. Na verdade, é tudo escuro.”
Essa frase impactante não é de nenhum integrante da banda. Mas sim de Gerry O’Driscoll, porteiro do famoso estúdio Abbey Road, onde o álbum foi gravado. Waters entrevistou diversas pessoas pelos corredores do estúdio, buscando pensamentos espontâneos. A sinceridade e o sotaque irlandês de O’Driscoll o tornaram a escolha ideal para a última fala do disco. Um detalhe é que Paul e Linda McCartney chegaram a gravar a falas também, mas acabaram não utilizadas. O porteiro também aparece discretamente na faixa “The Great Gig in the Sky”. Conforme consta na biografia, “Inside Out” de Nick Mason.
Construção musical sem refrão
David Gilmour, guitarrista e vocalista da banda, contou à Rolling Stone em 2011 que trabalhou intensamente para construir uma música coerente e dinâmica, mesmo sem refrões ou mudanças tradicionais. “A cada quatro versos, fazemos algo diferente. É apenas uma lista direta, então era importante variar a harmonia”. Conforme explicou.
Pouca gente sabe, mas o título provisório do álbum era “Eclipse: A Piece For Assorted Lunatics”. As primeiras versões de The Dark Side of the Moon começaram testadas ao vivo em 1972. Naquele ano a banda ainda refinava os arranjos nos palcos antes de entrar em estúdio — algo quase impossível nos dias de hoje.
Segredos escondidos na mixagem
No final da faixa, se você usar fones de ouvido e prestar atenção ao canal certo, é possível ouvir ao fundo uma versão em estilo muzak de “Ticket to Ride”, dos Beatles. Além do mais, o dedilhado da guitarra de Gilmour também lembra, “I Want You (She´s So Heavy”, do álbum Abbey Road do Beatles.
Em entrevista à Guitar World em 1993, Gilmour revelou que o produtor Chris Thomas acabou chamado para resolver os impasses entre ele e Waters durante a mixagem do álbum. “Roger queria algo seco, influenciado pelo álbum Plastic Ono Band, do John Lennon. Eu queria algo grandioso, cheio de reverbs”, disse Gilmour. Apesar das interferências de ambos, Thomas seguiu mais a linha sonora de Gilmour, ao lado do engenheiro de som Alan Parsons.
O coração que começa e encerra o álbum
O som de batidas de coração — que abre a faixa “Speak to Me” — também encerra o disco em Eclipse, fechando o ciclo de maneira simbólica. Na verdade, trata-se de um bumbo processado para soar como uma pulsação, mais um exemplo da genialidade sonora do grupo.
Durante o eclipse solar de 8 de abril de 2024, a faixa Eclipse voltou ao centro das atenções. Fãs e observadores do fenômeno usaram o álbum como trilha sonora do evento. Portanto, repetindo a tradição dos anos 90, quando The Dark Side of the Moon está sincronizado com O Mágico de Oz. Sendo assim, se iniciado cerca de 42 minutos antes do eclipse total, o disco alcança o verso final justamente no momento em que a lua bloqueia o sol. “E tudo sob o sol está em sintonia,mas o sol é eclipsado pela lua.”