Músicos criaram canções inspiradas nos boatos da morte de Paul McCartney em 1969

Após o lançamento de Abbey Road, Paul McCartney sumiu dos holofotes.

Foto: Raph_PH, CC POR 2.0, via Wikimedia Commons

No dia 26 de setembro de 1969, era lançado verdadeiramente o último álbum dos Beatles, “Abbey Road”, que começou a ser produzido a partir de fevereiro de 1969. 

Naquele momento, o staff em torno dos Beatles já sabia que a banda não existia mais. Afinal, durante uma reunião em 19 de setembro, John Lennon anunciou que estava deixando a banda. A pedido de todos, inclusive de Allen Klein, Lennon segurou a informação para que não prejudicasse o lançamento de “Abbey Road” e os contratos que iriam até o fim do ano. 

John neste período estava viciado em heroína, e seu comportamento oscilava entre euforia, raiva e tristeza. Ou seja, mudava a todo instante. 

Refúgio na Escócia.

Pouco antes do lançamento de “Abbey Road”, no dia 20 de setembro, Paul se refugiou em sua fazenda na Escócia junto com Linda, a recém-nascida Mary, Heather e a cadela Martha, cansado de toda a briga com Lennon e Klein. 

Naquele momento Paul McCartney se tornou invisível, e somente a família, e os colaboradores mais próximos da Apple sabiam sobre o refúgio do Beatle na península de Kintyre, na Escócia. 

Nem os fãs que viviam na porta da Cavendish Avenue em Londres, que conseguiam as informações mais sigilosas, descobriram o paradeiro. Portanto, começaram a surgir boatos sobre a morte de Paul McCartney, quando um jovem da universidade de Drake, em Iowa, publicou um relato satírico dando conta de que Paul estava morto.

A peça humorística do jovem estudante acabou levada a sério por radialistas nos Estados Unidos, principalmente no meio-oeste. A partir daí se criou a teoria de que o baixista tinha morrido em 1966, em um acidente de carro, e por conta disto a banda parou de fazer turnês, e Paul acabou substituído pelo sósia William Campbell.

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O acidente realmente ocorreu, mas em dezembro de 1965, em que McCartney acabou fissurando o lábio e quebrando um dente, tanto que apareceu com o dente quebrado nos videoclipes de “Rain” e “Paperback Writer”. 

Então, fãs, analistas, jornalistas e o Disc Jockey Russ Gibb da rádio de Detroit difundiram o boato e começaram a dissecar a obra dos Beatles a partir de “Sgt. Pepper”, caçando pistas. Como por exemplo, que a capa do álbum “Pepper”, seria o funeral do Beatle, com o baixo em formato de flores enfeitando a cova. Paul dando as costas na contracapa do álbum, com a insígnia OPD no ombro, significando para os conspiracionistas, “Oficialmente declarado morto”, mas que na realidade era, “Ontario Provincial Police”.

O mesmo aconteceu com Paul aparecendo de cravo vermelho no filme Magical Mystery Tour., indicando luto.

Em “Revolution 9”, do álbum branco, os “especialistas”, ouviram frases como, “Turn on, dead man” (me deixe ligado, homem morto). Na parte final de “Strawberry Fields Forever”, Lennon supostamente canta, “I buried Paul”, (eu enterrei Paul). Já em “I’m So Tired”, Ringo possivelmente diz, “Paul está morto, sinto falta dele”.

Capa de Abbey Road.

Sendo assim, a enigmática e clássica capa de Abbey Road virou uma peça fundamental para aumentar mais estas teorias. Tendo os quatro atravessando a rua de forma quase sincronizada, somente Paul fora da linha. Criativos, os teóricos viram em John, Paul, George e Ringo como se estivessem indo a um cortejo, John como o padre, Ringo, o agente funerário, Paul, o falecido com os pés descalços, e George, o coveiro. 

Estacionado ao fundo, um fusquinha com a placa, “IF 28”, ou seja, se Paul estivesse vivo teria 28 anos, o que é um erro, afinal é 1969, Paul teria 27 anos. 

Músicas para o “Morto”

Em novembro de 1969, houve uma inundação de singles inspirados na ideia da morte de Paul, como por exemplo, “Brother Paul”, de Billy Shears and the All-americans, “Saint Paul”, de Terry Knight, “So long” de Wembley Finst (José Feliciano), e “We´re All Paul Bearers” de Zacharias and his tree people. Confira:

Negação dos boatos.

A assessoria da Apple negava todos os boatos, e a imprensa conseguiu chegar até Jim McCartney, pai de Paul, que também negava tudo. 

No entanto, a revista Life resolveu ir a fundo e descobriu a fazenda de Paul na Escócia e mandou um repórter para lá. Eles chegaram de manhã enquanto Paul ainda dormia. Furioso com a chegada da imprensa, ele perseguiu o jornalista e jogou um balde de água, com restos de lixo da cozinha. Veja o registo em vídeo:

Contudo, ele já havia sido fotografado, e o seu lado relações públicas falou mais alto e resolveu tirar proveito da situação. Paul pediu desculpas ao repórter e concordou com a matéria, mas que fosse capa, e que a foto mostrasse ele de um modo comum, porém sofrido. 

Sendo assim, a capa da Life saiu em 7 de novembro, com Paul descabelado, barbudo, segurando Mary ainda bebê, com Linda e Heather ao seu lado, e segurando um cajado de pastor de ovelhas. A manchete dizia, “Paul ainda está entre nós”. 

Rumores exagerados

Em um dos trechos da matéria Paul declarava sobre o sumiço, “Os rumores sobre a minha morte foram muito exagerados. Talvez por eu não ter estado presente na imprensa ultimamente. Eu já apareci na mídia o suficiente para toda uma vida, e não tenho nada a dizer nestes dias. Estou feliz em estar com a minha família e vou trabalhar quando tiver de trabalhar. Estive ligado durante dez anos sem nunca desligar. Agora estou desligando sempre que posso. Preferiria ser um pouco menos famoso nos dias de hoje”. Conforme está na biografia, “Paul McCartney de Philip Norman”.

Mas Paul já deixava uma frase sobre o fim dos Beatles, “A coisa dos Beatles acabou, foi engolida”. 

Apesar de grande repercussão da publicação da Life, os holofotes se voltaram para um outro Beatle, John Lennon, que poucos dias depois, em 25 de novembro devolveu sua Ordem do Império Britânico à rainha como protesto no envolvimento britânico na Guerra do Vietnã e o desprezo pela fome da Biafra. Lennon acabou eleito o homem do ano em 1969, e próximo das festas de natal e ano novo John e Yoko lançaram “Happy Xmas (War Is Over)”, com outdoors promocionais na Trafalgar Square em Londres e na Time Square em Nova Iorque, contendo a frase, “A guerra acabou! Se você quiser. Feliz Natal de John & Yoko”, uma das ingenuidades de Lennon. 

Por fim, sem coincidências, Paul encerrou seu “retiro” na Escócia e voltou para Londres com a intenção de começar a produção do seu primeiro álbum solo. Afinal sempre existiu uma competição entre Lennon e McCartney,