“Polly”: a música do Nirvana que denuncia um crime brutal
“Polly”, uma das faixas mais impactantes do álbum Nevermind, do Nirvana, nasceu de uma história real e extremamente perturbadora. A canção foi inspirada em um caso de sequestro e tortura que chocou os Estados Unidos no final dos anos 1980. A vítima, uma adolescente cujo nome nunca foi revelado, havia ido ao seu primeiro show de rock quando foi abordada por Gerald Friend, um homem que já havia cumprido pena por crimes semelhantes.
Após o show, a jovem aceitou uma carona com Gerald, que a sequestrou. Durante dias, ela ficou mantida em cativeiro, sofreu abusos sexuais repetidos, teve os cabelos raspados, queimada com maçarico e deixada pendurada de cabeça para baixo, sendo alimentada apenas com biscoitos. Dessa forma, a brutalidade do crime causou revolta especialmente pelo fato de Friend já ter sido condenado anteriormente por um crime semelhante, o que levantou duras críticas ao sistema judicial americano.

Mesmo em meio ao sofrimento, a jovem encontrou uma forma de enganar o sequestrador e conseguiu escapar. E acima de tudo, Gerald Friend acabou condenado a 70 anos de prisão.
Então, ao ler sobre o caso em um jornal, Kurt Cobain ficou profundamente comovido. Sem palavras, chorou ao imaginar o sofrimento da garota. Foi a partir dessa dor e indignação que surgiu “Polly”. A canção tem a escrita sob a perspectiva do agressor, como forma de denunciar a frieza e o horror do crime. A composição é propositalmente desconfortável: a frase “Polly wants a cracker” (“Polly quer um biscoito”) remete ao modo como a vítima recebia alimentos, como se fosse um animal.
Sonoridade intimista.
A faixa tem uma sonoridade acústica e minimalista. Contudo, Kurt a interpretou quase sozinho, com pouca participação dos outros membros da banda, Dave Grohl e Krist Novoselic. Portanto, a escolha estética reforça o tom íntimo e sombrio da mensagem.
Para Kurt Cobain, falar sobre temas como abuso sexual era uma forma de combater o silêncio e a indiferença. Ele frequentemente participava de shows beneficentes em apoio a vítimas de estupro e usava sua voz para chamar atenção a essas causas. Por fim, “Polly” é uma canção feita para incomodar, para fazer pensar. Porque, como dizia o próprio Cobain, é preciso lembrar dessas histórias — não para revivê-las, mas para garantir que elas nunca mais se repitam.