Paul McCartney comprou dezenas de hectares para que seus animais vivessem livres

Durante os primeiros anos de casamento com Linda, o cotidiano de Paul McCartney parecia dividido entre dois mundos: a tranquilidade da fazenda na Escócia e a casa em St. John’s Wood, em Londres, onde a cultura urbana e os estúdios da Abbey Road Studios estavam sempre por perto.

Mas essa rotina começou a mudar no início dos anos 1970. O sucesso crescente da banda Wings trouxe uma agenda intensa de turnês e gravações. Então, tornando cada vez mais difícil para o músico passar longos períodos isolado em sua propriedade escocesa. Conforme consta na biografia, “Paul McCartney” de Philip Norman.

Uma “fazenda urbana” no coração de Londres

Enquanto isso, a casa da família em Cavendish Avenue, número 7, já não era exatamente um lugar tranquilo. Graças à criatividade de Linda McCartney, o elegante imóvel de solteiro de Paul ganhou o clima de uma verdadeira fazenda urbana.

O quintal era habitado por coelhos, patos e galinhas — incluindo um galo que cantava o dia inteiro e podia ser ouvido até do famoso campo de críquete do Lord’s Cricket Ground, ali perto.

Havia ainda uma grande horta, um templo geodésico de vidro usado para meditação e até uma cama circular que já havia pertencido ao comediante Groucho Marx.

Os animais circulavam pela propriedade com a mesma liberdade das filhas do casal. Em certa ocasião, Paul deixou a janela de seu Rolls-Royce aberta e algumas galinhas invadiram o carro, causando um prejuízo de cerca de seis mil libras.

Entre os moradores mais curiosos estava um pato chamado Quacky, que tinha permissão para entrar na casa e costumava ficar sentado no sofá ao lado das crianças.

Cachorros, barulho e reclamações dos vizinhos

A lista de animais da família ainda incluía vários cães. Como por exemplo, Martha, o velho pastor inglês que inspirou a canção Martha My Dear. Jet, o labrador que deu nome à música Jet, do álbum Band on the Run; além de Poppy e Lucky.

O latido constante dos cães e o movimento permanente de fãs em frente à casa começaram a incomodar os vizinhos. Uma moradora chegou a denunciar a família à Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals, alegando que os animais eram deixados sozinhos.

A investigação, porém, mostrou que Paul e Linda haviam contratado uma pessoa para cuidar dos cães durante o dia — e até pediam a alguns fãs mais tranquilos que levassem os cachorros para passear em Hampstead Heath.

A busca por privacidade perto de Londres

Todo esse cenário reforçou uma necessidade crescente de McCartney: encontrar um refúgio perto de Londres que oferecesse a mesma liberdade e privacidade de sua fazenda na Escócia.

Foi assim que, no início de 1973, ele comprou por 42 mil libras a propriedade Waterfall Cottage. O lugar estava localizado na pequena vila de Peasmarsh, próxima à histórica cidade de Rye.

A região, conhecida por sua paisagem típica inglesa, era dominada pela igreja normanda St. Peter and St. Paul Church. A área também tinha ligação com a literatura: ali viveu o reverendo Henry George Liddell, cuja filha Alice inspirou Alice’s Adventures in Wonderland, de Lewis Carroll.

A casa era modesta, com dois quartos e construída nos anos 1930. No entanto, vinha acompanhada de cerca de quarenta hectares de bosques e uma pequena cachoeira que deu origem ao nome da propriedade.

Fãs invasores e a expansão da fazenda escocesa

Apesar da tranquilidade aparente, nem mesmo a fazenda escocesa de McCartney estava livre de problemas. Um dos episódios mais curiosos envolveu uma fã mórmon dos Estados Unidos que havia passado três anos esperando na porta da casa do músico em Londres.

Em 1971, ela acabou encontrada acampada com uma amiga em um bosque próximo à fazenda, observando a propriedade com binóculos. O encontro gerou tensão e a fã chegou a acusar Paul de agressão, algo que ele negou. Contudo, nunca houve acusação formal.

Após o episódio, McCartney decidiu comprar toda a área ao redor da fazenda para evitar novas invasões. A aquisição de propriedades vizinhas ampliou significativamente suas terras. Inclusive, incluindo a fazenda Low Ranachan, onde os Wings chegaram a ensaiar músicas de Band on the Run.

Uma reserva natural criada pelos McCartney

As novas aquisições acabaram gerando um efeito inesperado para o meio ambiente. Por sugestão de Linda, muitas cercas e muros que dividiam as propriedades acabaram removidas, permitindo que a fauna e a flora se expandissem livremente.

Com o tempo, a região passou a funcionar quase como uma reserva natural. Espécies como os veados-vermelhos das Highlands, que estavam desaparecendo da área, voltaram a aparecer em grande número.

Portanto, o que começou como uma tentativa de garantir privacidade para a família de Paul McCartney acabou criando um dos refúgios naturais mais preservados da região. E por fim, um legado silencioso do ex-Beatle muito além da música.