Jards Macalé morre aos 82 anos no Rio de Janeiro
O Brasil se despediu, nesta segunda-feira (17/11/2025), de um de seus artistas mais inquietos e livres. Jards Macalé, cantor, compositor e figura fundamental da música brasileira, morreu aos 82 anos, no Rio de Janeiro. Internado na Barra da Tijuca para tratar um enfisema pulmonar, ele sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.
Carioca da Tijuca, Macalé cresceu cercado pelo samba do Morro da Formiga e pela música erudita — duas influências que moldaram seu estilo singular, sempre à margem do óbvio. O apelido que o acompanharia por toda a vida surgiu ainda na juventude, quando colegas o compararam a um jogador do Botafogo conhecido pelo desempenho irregular. A brincadeira virou assinatura.
A partir dos anos 1960, consolidou seu caminho estudando com mestres como Guerra Peixe e Turíbio Santos e se aproximando de nomes que mudariam o curso da música brasileira. Foi diretor musical de Maria Bethânia, colaborou com Caetano Veloso — com quem trabalhou no icônico disco Transa — e mergulhou na contracultura que marcou aquela década.
Em 1969, deixou uma marca definitiva ao subir no palco do Festival Internacional da Canção com “Gotham City”, parceria com Capinam. A apresentação virou símbolo de rebeldia, ruído e experimentação em plena ditadura.
Macalé também aproximou sua música do cinema. Criou trilhas para mestres como Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e Glauber Rocha. E firmou parcerias com poetas e personagens essenciais da cultura brasileira, entre eles Waly Salomão, Torquato Neto e Moreira da Silva.
Entre suas canções mais conhecidas estão “Vapor Barato”, “Movimento dos Barcos”, “Soluços”, “Mal Secreto” e “Farinha do Desprezo” — músicas que atravessam gerações e seguem inspirando novos artistas.
A família divulgou uma nota emocionante ao anunciar sua morte:
“Cante, cante, cante… é assim que sempre lembraremos do nosso mestre, professor e farol de liberdade.”
Com uma obra extensa e indomável, Jards Macalé deixa um legado que continua ecoando. Um artista que nunca abriu mão de sua verdade — e que, por isso mesmo, permanece indispensável.