George Harrison: “Em 1968, os egos de todos começaram a enlouquecer”
Na biografia “O Beatle Relutante” constam falas de George, principalmente sobre a relação com McCartney.
A relação entre George Harrison e Paul McCartney dentro dos Beatles sempre foi complexa. O guitarrista frequentemente se ressentia do controle criativo exercido por Paul, especialmente nos últimos anos da banda. Os dois eram amigos de infância e pré-adolescência em Liverpool antes de Paul conhecer John Lennon.
Em uma entrevista de 1976 à NME, George revelou como essa dinâmica contribuiu para sua frustração e eventual afastamento da banda. “Quando vocês são tão próximos, vocês tendem a trancar um ao outro em compartimentos. Musicalmente, com Ringo e John, eu não tive problemas. Mas com Paul, bem, chegou a um ponto em que ele não me deixava tocar nas sessões. Foi parte da nossa separação.” Conforme consta na biografia “George Harrison: o Beatle relutante”.
Essa tensão culminou durante as gravações do que viria a ser o álbum Let It Be durante o projeto Get Back, fato que é exposto no documentários de Peter Jackson na Disney +, quando George, exausto com o domínio de Paul, além de outras questões relacionadas aos problemas financeiros da banda, abandonou as sessões abruptamente.
Em 1979, ele disse à Rolling Stone: “Eu não sei sobre estar em uma banda com ele, como isso funcionaria. É como se todos nós tivéssemos nossas próprias músicas para fazer. E meu problema era que sempre seria muito difícil entrar no ato, porque Paul era muito insistente nesse aspecto. Quando ele sucumbia a tocar uma de suas músicas, ele sempre se saía bem. Mas você teria que tocar cinquenta e nove músicas de Paul antes que ele sequer ouvisse uma das suas. Então, nesse aspecto, seria muito difícil tocar com ele.”
Discursso afiado
Após o fim dos Beatles, George e Paul seguiram caminhos distintos e, por um longo período, não mantiveram contato próximo. Como por exemplo, em 1988 Paul decidiu não comparecer à cerimônia de indução dos Beatles ao Rock & Roll Hall of Fame, citando as disputas legais como justificativa. Ainda assim, George tentou minimizar as diferenças entre eles, com seu humor peculiar quando subiu ao palco com Ringo e Yoko, mas alfinetando seu amigo McCartney.
“Não preciso falar muito porque sou o Beatle quieto. É uma pena que Paul não esteja aqui porque é ele quem tinha o discurso no bolso. De qualquer forma, todos nós sabemos porquê John não pode estar aqui e tenho certeza de que ele estaria. É difícil ficar aqui supostamente representando os Beatles. É o que sobrou, estou com medo. Mas todos nós o amávamos muito e todos nós amamos muito Paul.”
Mesmo sem uma convivência frequente, George mantinha uma visão pragmática sobre a relação com Paul. Em entrevista a Mark Rowland, ele comentou: “Eu penso nele como um bom amigo, na verdade, mas um amigo com quem eu não tenho mais muito em comum. Você sabe, é como se você conhecesse pessoas na sua vida que significam uma certa coisa; é como se você fosse casado, e então você se divorciasse, e você desejasse o bem da outra pessoa, mas a vida o levou para outros lugares, para confins mais amigáveis… qualquer que seja a expressão…”
Apesar dos ressentimentos, George sempre se mostrou disposto a defender Paul e os demais ex-companheiros de banda, afirmando o que a maioria dos fãs dos Beatles já sabia a guerra de egos entre eles. “Mas, ao mesmo tempo, tenho uma tendência a defender Paul, John e Ringo também, se qualquer outra pessoa dissesse algo sem qualificação sobre eles. Depois de passar por tudo isso juntos, deve haver algo de bom nisso. É que por volta de 1968 os egos de todos começaram a enlouquecer. Talvez tenha sido apenas falta de tato ou discrição.”
Reconciliações.
Nos anos finais de sua vida, George continuou a expressar suas opiniões sinceras sobre Paul. Em uma entrevista para a TV canadense em 1988, ele afirmou: “Nos últimos anos, eu disse o que pensava a ele, sabe, sempre que sentia alguma coisa.” Quando soube que Paul pretendia fazer covers de músicas dos Beatles e de John Lennon, George não hesitou em ironizar: “Paul? Talvez porque ele ficou sem as suas próprias músicas boas. É verdade. Mas, na verdade, eu amo Paul, ele é meu amigo, e não importa o que eles digam nos jornais, eles não vão tirar muito proveito disso.”
George Harrison morreu em 29 de novembro de 2001, em uma mansão cedida por Paul McCartney na Califórnia, os dois chegaram a se despedir de mãos dadas, segundo relato do próprio Macca.
“Quando o vi pela última vez, ele estava muito doente e eu segurei sua mão por quatro horas”, ele contou. “E, enquanto fazia isso, eu pensei: ‘Nunca segurei sua mão antes, nunca. Não é isso que dois colegas de Liverpool fazem, não importa o quanto eles se conheçam’. Fiquei pensando: ‘Ele vai me dar um tapa aqui’. Mas ele não me deu um tapa. Ele apenas acariciou minha mão com o polegar e eu pensei: ‘Ah, tudo bem, a vida é assim. É difícil, mas é adorável. É assim que as coisas são’.”
