Cowboy Fora da Lei: o hino que zombou da política e o mito da liberdade
A história de “Cowboy Fora da Lei”, clássico de Raul Seixas que demorou quase uma década para ficar pronta.
Raul Seixas começou a idealizar “Cowboy Fora da Lei” ainda em 1973, período marcado pelo auge da ditadura militar no Brasil. A música nasceu com forte influência country, mas acabou ficando inacabada.
Contudo, mais de uma década depois, em 1984, Raul retomou a ideia sob o título provisório de “Anarkilópolis”, desta vez em parceria com Silvio Passos. A origem dessa amizade rende uma boa história: Silvio, ainda jovem e fã fervoroso, queria conhecer Raul a qualquer custo. Conseguiu um número de telefone, ligou e, ao se apresentar, o próprio Raul chegou a pensar que falava com Silvio Santos. O mal-entendido virou conversa, afinidade e, logo, amizade.
Então, Raul decidiu investir em, “Anarkilópolis”. O Brasil vivia o período de redemocratização com a campanha das Diretas Já no auge, o que acabou não acontecendo, afinal Tancredo Neves acabou eleito de forma indireta, mas não assumindo, afinal, morreu antes.
A Letra
A letra narra o convite de uma cidade recém-liberta a um personagem para celebrar a tão esperada festa da liberdade. Porém, ao chegar lá, ele se vê encurralado por bandidos — uma metáfora que revela o verdadeiro sentido da canção. Raul critica o fim da ditadura e expõe a ideia de que, apesar das mudanças e da aparência de liberdade, continuamos sob vigilância e controle.
Por conta disto, existe o trecho do refrão, “Eu não sou besta pra tirar onda de héroi, sou vacinado, eu sou Cowboy. Cowboy fora da lei”. Portanto, Ou seja, não adiantaria querer bancar o salvador da pátria. E permeada pela frase, “Durango Kid só existe no Gibi, e quem quiser que fique aqui, entrar pra história é com vocês!”
Retomando a canção.
“Anarkilópolis” acabou ficando de fora do álbum “Metrô Linha 743” e só seria lançada em 2003. Alguns anos antes, em 1986, Raul retomou a composição, desta vez com Cláudio Roberto e Rick Ferreira, músico responsável por guitarra, banjo e steel guitar.
Nessa nova fase, Raul atualizou a letra para refletir o contexto político brasileiro — afinal, as eleições municipais já tinham acontecido. Um detalhe curioso: o SBT realizou uma pesquisa, na época, perguntando quem os paulistanos gostariam de ver como prefeito. Entre os nomes citados estavam Raul Seixas, Pelé e Xuxa.
Daí surgiu a frase imortalizada por Silvio Passos:
“Mamãe, eu não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito, e alguém pode querer me assassinar.”
O verso faz alusão aos rumores de que Tancredo Neves teria sido assassinado. Em entrevistas sobre a música, Raul confirmou que a letra dialogava com figuras como Gandhi e Martin Luther King e Jesus, e admitiu acreditar que Tancredo havia sido morto.
Então, prova disso é que um trecho original dizia:
“Oh, coitado do Tancredo”,
No entanto, acabou reescrito para:
“Oh, coitado, foi tão cedo, morrer dependurrado numa cruz”. Mudando a referência para Jesus.
Por fim, “Cowboy Fora da Lei” teve um videoclipe produzido pelo Fantástico e acabou ganhando disco de ouro.
Fonte: Júlio Ettore

