“Cold Turkey”: a dolorosa verdade por trás da música de John Lennon

Música iria entrar no álbum Abbey Road, mas acabou rejeitada pelos Beatles.

Você sabia que “Cold Turkey”, uma das canções mais intensas de John Lennon, nasceu de uma experiência real de abstinência de drogas? A faixa, marcada por gritos angustiantes e uma sonoridade crua, foi escrita após o ex-Beatle decidir largar o uso de heroína de forma abrupta — um processo fisicamente devastador, conhecido como parar de uma vez, ou em inglês, cold turkey.

A luta contra as drogas e a busca por um novo começo

No final dos anos 1960, Lennon enfrentava uma profunda transformação pessoal. Ao lado de Yoko Ono, com quem desejava construir uma nova vida longe dos excessos, ele optou por abandonar as drogas de forma radical. A canção “Cold Turkey” é um relato cru e visceral dessa vivência. Segundo o próprio artista, os sintomas da abstinência o levaram a um estado extremo, e a música se tornou uma catarse dessa dor.

“Cold Turkey foi proibida. Achavam que era pró-drogas. Mas era só a minha verdade. Escrevi sobre a experiência da abstinência. Nada mais.” – John Lennon, entrevista à BBC Radio 1, 1980.

A heroina era usada como anestésico na 1ª guerra mundial, que amenizava as dores causadas por ferimentos. Contudo, ao passar o efeitos, as dores voltavam com mais força, e causavam febre e arrepios, por este motivo Lennon nomeou como “Cold Turkey” (Peru Frio)

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Rejeitada pelos Beatles, abraçada pela Plastic Ono Band

Inicialmente, Lennon queria gravar “Cold Turkey” com os Beatles para o álbum Abbey Road. No entanto, a banda recusou a ideia. Determinado a lançar a faixa, ele reuniu um grupo de músicos talentosos, incluindo Eric Clapton, Klaus Voorman e Alan White, e formou a Plastic Ono Band. Foi com esse grupo que Lennon levou a canção ao público, lançando-a como single em 1969.

Além disso, a canção marcou o segundo single solo de Lennon após deixar os Beatles, sendo precedida apenas por “Give Peace A Chance”.

Uma performance histórica e polêmica no Canadá

Em 13 de setembro de 1969, Lennon apresentou “Cold Turkey” ao vivo no Toronto Rock and Roll Revival Festival. A performance foi marcante: enquanto a banda tocava, Yoko Ono saiu de dentro de uma sacola no palco e emitiu sons estranhos ao microfone, comparados por muitos aos de um peru. O momento virou história e foi eternizado no álbum “Live Peace In Toronto 1969”.

O som dos gritos: antes da Primal Scream, a inspiração foi Yoko

Curiosamente, embora mais tarde Lennon tenha mergulhado na chamada terapia do grito primal, os gritos que se ouvem em “Cold Turkey” foram, segundo ele, uma tentativa de imitar os vocais experimentais de Yoko Ono. A influência dela é clara tanto na forma quanto no conteúdo da canção.

Em novembro de 1969, Lennon foi ainda mais longe em sua postura crítica. Ele devolveu sua honraria de MBE (Membro do Império Britânico) à Rainha Elizabeth II com uma carta contundente. Entre os motivos listados estava a queda da música “Cold Turkey” nas paradas — um ato simbólico que demonstrava sua frustração com a censura e a falta de compreensão sobre a proposta artística da faixa.


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“Cold Turkey”: mais que uma música, um grito de verdade

Mais do que um single controverso, “Cold Turkey” é um retrato cru de um momento decisivo na vida de John Lennon. Rejeitada pelos Beatles, incompreendida por parte do público, mas reverenciada pelos fãs mais atentos, a canção permanece como um dos registros mais autênticos e intensos da transição do artista do pop para a arte de protesto e autoconhecimento.

Se você ainda não ouviu essa pérola do rock visceral, vale a pena redescobrir. Afinal, nem todas as verdades vêm com melodias doces — algumas vêm com gritos sinceros.