“A Hard Day’s Night” virou “Os Carecas São Demais” na Jovem Guarda.
Versão criada por Carlos Imperial é uma curiosa raridade do movimento da jovem guarda.
Muito antes de o termo skinhead ganhar repercussão internacional, o Brasil já vivia, em plena década de 1960, um fenômeno que misturava música, comportamento e confronto de rua. Em 1965, no auge da Jovem Guarda, surgia o grupo Os Carecas, uma banda que extrapolou os limites do palco e se transformou também em um verdadeiro gangue urbano.
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A ligação dos Carecas com o rock internacional ficou marcada pela gravação de “Os Carecas São Demais”, versão em português de “A Hard Day’s Night”, dos Beatles. A adaptação da letra foi assinada por Carlos Imperial, figura central da música jovem brasileira, conhecido por tropicalizar sucessos estrangeiros e moldá-los ao contexto nacional. Mas, diferente de outras versões inocentes da época, essa carregava um discurso explícito de exclusão e identidade de grupo.
Na letra, os Carecas deixam claro o espírito sectário que os definia: “quem tem cabelo não vai, na minha turma não sai”. A frase não era apenas provocação estética, mas um manifesto de pertencimento. O visual raspado, a postura agressiva e o orgulho em ser rejeitado já apareciam como marcas registradas do grupo. Sobretudo, resumidas no lema que atravessaria gerações: “odiados e orgulhosos”.
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Mais do que músicos, os Carecas eram conhecidos pelas constantes brigas com outro grupo que também transitava entre banda e gangue: Os Metralhas. Integrantes do mesmo ambiente da Jovem Guarda, os Metralhas chegaram a narrar em suas músicas confrontos diretos com os Carecas, incluindo episódios em que membros de ambos os lados terminaram na delegacia. A rivalidade virou tema musical e ajudou a consolidar uma espécie de crônica violenta da juventude urbana dos anos 60.
O tom agressivo não parava por aí. Em “O Homem das Cavernas”, outra música atribuída aos Carecas, o discurso beira o primitivismo simbólico. Afinal, traz ameaças explícitas a quem ousasse interferir em seus relacionamentos amorosos. A letra fala em ataques com “golpes de machado”, reforçando a imagem de força bruta e domínio territorial que o grupo cultivava.
Esse conjunto de elementos. Como por exemplo, estética, violência simbólica, orgulho marginal e identidade coletiva — faz com que muitos pesquisadores e curiosos da cultura pop afirmem que o chamado movimento “careca” brasileiro nasceu em 1965. Portanto, antecedendo em anos o surgimento dos skinheads no Reino Unido, geralmente associado ao final da década de 1970.
