Como Dennis Carvalho revolucionou as novelas brasileiras.
Segundo a BBC News Brasil, artista foi um dos nomes centrais da teledramaturgia e ajudou a levar linguagem cinematográfica às produções da TV Globo
Morreu na manhã deste sábado (28/2), no Rio de Janeiro, o ator e diretor Dennis Carvalho, aos 78 anos. Ele estava internado no hospital Copa Star, em Copacabana. A unidade confirmou a morte em nota, mas não informou a causa nem detalhes, a pedido da família. As informações são da BBC News Brasil.
De ator mirim a diretor de clássicos da TV
Nascido em 1947, Dennis iniciou a carreira aos 11 anos, após teste para a novela Oliver Twist, da extinta TV Paulista, baseada na obra de Charles Dickens.
Como ator, destacou-se entre o fim dos anos 1960 e os anos 1980, participando de produções marcantes como Pecado Capital e Roque Santeiro. Com o passar dos anos, concentrou sua trajetória na direção, área em que consolidou seu legado.
Ele estreou como diretor em 1977, na novela Sem Lenço, Sem Documento, e trabalhou como assistente de Daniel Filho antes de assumir trabalhos de maior protagonismo, como Malu Mulher.
Parceria histórica com Gilberto Braga
Nos anos 1980, firmou uma parceria decisiva com Gilberto Braga. Juntos, criaram a versão original de Vale Tudo, considerada uma das novelas mais importantes da história da televisão brasileira. A dupla também esteve à frente de Anos Rebeldes e Pátria Minha.
Segundo a BBC, a crítica especializada considera esse período o auge da carreira de Dennis Carvalho, especialmente pela combinação entre texto afiado e direção visual sofisticada.
A novela com “cara de cinema”
Ao lado de nomes como Luiz Fernando Carvalho, Dennis ajudou a transformar a estética das novelas nos anos 1980. Em vez da linguagem mais estática e teatral que predominava até então, passou a adotar movimentos de câmera mais fluidos, enquadramentos variados e iluminação contrastada.
Essa mudança trouxe mais dinamismo às cenas, com cortes rápidos e alternância ágil entre núcleos de personagens. No entanto, o estilo exigiu também atuações mais naturalistas, com gestos contidos e maior expressividade facial, adequadas aos planos fechados e à nova gramática visual.
De acordo com a BBC, o desafio era ainda maior pela rotina industrial da TV: novelas chegam a gravar cerca de 20 cenas por dia, com múltiplas frentes de filmagem simultâneas.
“A TV brasileira deve muito a ele”, diz Boni
Em entrevista à BBC News Brasil, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, afirmou que Dennis sabia equilibrar realismo e escapismo na medida certa.
Para ele, a dramaturgia televisiva precisa manter “um pé na realidade e outro na ficção” para fidelizar o público — característica que, segundo Boni, o diretor dominava com sensibilidade e maestria.
O beijo que marcou Babilônia
Um dos momentos mais debatidos de sua carreira ocorreu em Babilônia, último trabalho de Gilberto Braga. Logo no primeiro capítulo, as personagens interpretadas por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg protagonizaram um beijo — pioneiro entre duas mulheres idosas na TV brasileira.
Segundo a BBC, o gesto gerou reação negativa de parte do público e pressão política, resultando em queda de audiência e mudanças no roteiro. Contudo, ainda assim, a decisão foi vista como corajosa por setores da crítica e da indústria audiovisual, por enfrentar o conservadorismo em temas ligados à sexualidade e gênero.
Despedida e tributo
A antepenúltima novela de Dennis foi Babilônia. Sua despedida definitiva da direção ocorreu no especial Show 60 Anos, que celebrou as seis décadas da emissora.
A trajetória do diretor será relembrada em um episódio especial do programa Tributo, com depoimentos de colegas de profissão.
Portanto, com mais de cinco décadas de carreira, Dennis Carvalho deixa um legado que redefiniu a linguagem das novelas brasileiras. Sobretudo, influenciando gerações de profissionais da televisão
