A curiosa regra dos M&M’s que revelou o perfeccionismo do Van Halen
A exigência aparentemente absurda tinha um fundamento relacionado a segurança e qualidade.

As bandas de rock, especialmente durante as décadas de 1970 e 1980, ficaram famosas não apenas pela música, mas também por exigências excêntricas em contratos e camarins. Algumas pareciam caprichos de estrelas, mas outras escondiam razões muito mais sérias. Um dos casos mais emblemáticos envolve o Van Halen, uma das maiores bandas de hard rock dos anos 80.
Conhecido pelo rigor técnico e pela obsessão com segurança e qualidade de som, o Van Halen levava cada detalhe de seus shows ao extremo. Para garantir que os contratantes realmente lessem o contrato — e cumprissem todas as exigências técnicas — a banda criou o que ficou conhecido como uma “armadilha de atenção”.
A exigência era simples e, ao mesmo tempo, específica: no camarim deveria haver um pote de M&M’s, sem nenhuma unidade da cor marrom. Caso a regra fosse descumprida, o show poderia ser cancelado, mesmo com o cachê pago integralmente.
Ao contrário do que muitos imaginam, a banda não se importava com a cor do chocolate. O objetivo era outro. Se o contratante fosse cuidadoso o suficiente para cumprir uma regra aparentemente banal, significava que também havia seguido à risca as cláusulas realmente importantes. Como por exemplo, estrutura de palco, capacidade do piso e segurança elétrica. Era uma forma inteligente de evitar acidentes graves.
Quando a regra acabou ignorada — e o prejuízo foi milionário
Em 30 de março de 1980, no estado do Colorado (EUA), um contratante decidiu provocar a banda. Ignorou a cláusula e ainda colocou no camarim um pote recheado apenas com M&M’s marrons. A atitude irritou David Lee Roth, e o camarim acabou depredado.
Mas o pior veio depois. Ao checar a estrutura do local, a equipe percebeu que o equipamento pesado do Van Halen estava montado sobre um piso emborrachado, inadequado para suportar toneladas de peso. O chão cedeu, causando um prejuízo estimado em US$ 12 milhões. Exatamente o tipo de problema que a “regra do M&M” buscava evitar.
O episódio no Brasil e a escolha inesperada da banda de abertura
Décadas depois, o assunto voltou à tona no podcast Papo Com Clê, quando o músico Marcelo Sussekind relembrou um episódio vivido com o Van Halen durante a passagem da banda pelo Brasil, nos anos 80.
Segundo ele, ao chegar ao país, o Van Halen percebeu que não havia banda de abertura definida — algo que o grupo fazia questão de ter. Então, após ouvir algumas opções locais, a escolha foi direta.
“Tocou o telefone e falaram: ‘Você vem tocar com o Van Halen’. A gente não tinha equipamento nenhum. Tudo tinha ido para outro show. Fomos tocar sem amplificador de baixo, improvisaram tudo. E fizemos o show em São Paulo.” O Herva Doce tocou nos shows que aconteceram em 1983.
O impacto do equipamento de Eddie Van Halen
Marcelo também descreveu o impacto físico e sonoro do equipamento de Eddie Van Halen, conhecido por seu setup único e extremamente complexo.
“Ele tinha 120 falantes de 12 polegadas atrás dele. Quando abriu a guitarra na passagem de som, só abriu e fechou, o Maracanãzinho inteiro sentiu. Foi um deslocamento de ar absurdo.”
Eddie utilizava um sistema próprio, com oito cabeçotes de guitarra, todos ligados a variacs — transformadores que elevavam a voltagem dos amplificadores muito além do padrão, deixando-os no limite da queima.
Todas as válvulas eram trocadas antes de cada show. Cordas e molas da alavanca também. Nada era reaproveitado. Um verdadeiro ritual técnico.
“Seis cabeçotes ficavam ligados e dois desligados. Cada um com osciloscópio, monitorando quando ia queimar. Quando avisava, o técnico trocava na hora. Tudo com ar-condicionado direto nos amplificadores.” Conforme lembra.
Perfeccionismo que virou lenda
O relato ajuda a entender por que o Van Halen ficou marcado como uma das bandas mais exigentes da história do rock. O famoso pote de M&M’s não era capricho, era engenharia preventiva. Portanto, uma forma simples de garantir que cada detalhe — do camarim ao palco — estivesse sob controle.
Por fim, a história dos M&M’s marrons virou lenda, mas também um símbolo do nível de profissionalismo. Afinal ajudou a transformar o Van Halen em referência absoluta nos palcos do mundo.