“Dumb”: a confissão silenciosa de Kurt Cobain sobre felicidade no auge do Nirvana
Lançada em 21 de setembro de 1993, Dumb é a sexta faixa do álbum In Utero, do Nirvana, e uma das canções mais introspectivas escritas por Kurt Cobain. Produzida por Steve Albini, a música nasceu durante as gravações no Pachyderm Studios, em Minnesota, e se destaca por sua sonoridade mais leve e melódica — um contraste evidente com o peso cru e distorcido que marcou o grunge dos anos 90.
O arranjo conta com um elemento inusitado: o violoncelo de Kera Schaley, que adiciona uma textura suave e melancólica. Essa escolha reforça o tom contemplativo da faixa, mostrando uma faceta mais delicada de Cobain, que em Dumb parece se despir da raiva e da ironia para revelar uma vulnerabilidade quase desconfortável.
A letra é simples, mas profundamente ambígua:
“I’m not like them, but I can pretend / I think I’m dumb, or maybe just happy.”
(Eu não sou como eles, mas posso fingir / Acho que sou burro, ou talvez apenas feliz).

Em uma entrevista à Melody Maker em 1993, Cobain explicou que a música fala sobre pessoas “facilmente felizes”, que vivem de forma simples e parecem satisfeitas com pouco. “Conheço muita gente que tem um emprego ruim, é solitária e ainda assim, de alguma forma, é feliz”, Conforme disse o vocalista. No entanto, essa observação reflete a dualidade entre a busca pela autenticidade e o desejo de escapar da dor. Afinal, um dos temas mais recorrentes na obra de Cobain.
Dumb também pode ser vista como uma reflexão sobre alienação e conformismo. O eu lírico reconhece que “não é como os outros”, mas considera fingir ser — talvez para se sentir aceito, talvez para encontrar paz. Essa tensão entre ser e parecer é o que torna a canção tão universal e atemporal.
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Apesar de nunca ter sido lançada como single principal, Dumb ganhou destaque nas rádios alternativas dos EUA e da Europa, consolidando-se como uma das faixas mais simbólicas do In Utero. É uma canção que mostra o Nirvana além da fúria e do caos: há ali um Kurt Cobain mais introspectivo, tentando compreender a própria existência dentro de um mundo que o incomodava.
Mais de três décadas depois, Dumb segue como um dos momentos mais sinceros da banda. Sua melodia calma esconde uma dor silenciosa, enquanto o vocal de Cobain transmite um sentimento de rendição diante da impossibilidade de ser plenamente feliz. Sobretudo, entender o que isso realmente significa.
“Dumb”, no fim das contas, não é apenas sobre se sentir burro. É sobre fingir ser algo mais simples para sobreviver em um mundo que exige complexidade demais.