Lô Borges: o gênio do “disco do tênis” que transformou liberdade em música

Em 1972 Lô Borges lançou seu primeiro álbum solo, que representou uma trilha sonora de liberdade.

Lô Borges, que faleceu nesta segunda-feira (2), deixa um legado que transcende gerações. Aos 20 anos, o cantor e compositor mineiro lançou um dos álbuns mais cultuados da música brasileira, conhecido como o “disco do tênis”, por estampar na capa um par de tênis surrado — imagem que se tornaria símbolo de liberdade e ruptura.

Antes disso, Lô já havia feito história ao lado de Milton Nascimento no clássico Clube da Esquina, lançado quando tinha apenas 19 anos. O sucesso rendeu um convite da gravadora Odeon para gravar seu primeiro trabalho solo. Inspirado por Beatles, psicodelia, bossa nova e pela alma da música brasileira, o jovem músico embarcou em um processo criativo intenso — sem nenhuma canção pronta quando assinou o contrato.

“Quando assinei o contrato, não tinha uma música. Casei com o violão — manhã, tarde e noite compondo. Cada dia nascia uma coisa nova, e o estúdio já estava marcado. Teve música que fiz dentro do estúdio”, relembrou o artista em entrevistas.

Lô destacou também a entrega dos músicos que o acompanharam:

“Fiquei impressionado com a generosidade deles. Todo mundo entrou de cabeça na história.”

Contudo, o compositor sempre afirmou que o álbum priorizava o som em vez das letras:

“A música é dominante. Eu estava cercado de gente que se importava mais com os efeitos, com o arranjo, com o som.”

Sem Trens Azuis

O disco traz 15 faixas — entre elas, “O Homem da Rua”, “O Caçador”, “Não Foi Nada”, “Toda Essa Água” e “Aos Barões”. Apesar da genialidade, o resultado surpreendeu a gravadora, que não compreendeu a proposta experimental.

“A Odeon estranhou o conteúdo. Não tinha um ‘Trem Azul’, nem uma ‘Janela Lateral’. Eram canções loucas, febris. E ainda botei um par de tênis na capa e dei um tchau pra gravadora”. Conforme contou, bem-humorado.

Afinal, a empresa esperava que ele gravasse discos anualmente, mas Lô recusou. “Tinha 19 anos, queria voltar pra Belo Horizonte, ver minha mãe e meus amigos”, afirmou. A capa com o tênis simbolizava justamente essa partida — o desejo de liberdade e de seguir o próprio caminho.

Rodando o Brasil.

Mesmo sem apoio comercial, Lô percorreu o país com o álbum, que se tornou uma obra rara e cultuada. Ele só voltaria aos estúdios seis anos depois, com o disco Via Láctea.

Em 2018, o artista revisitou o “disco do tênis” em um show ao vivo, regravando as faixas e refletindo sobre o impacto do trabalho:

“É um disco imaculado, colocado num altar. Percorreu o Brasil, o mundo, e eu nunca entendi por que não trabalhei mais essas canções.”

Inclusive uma curiosidade reforça a influência do mineiro: a faixa “Os Barões” inspirou Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys, na criação do álbum Tranquility Base Hotel & Casino (2018).

Por fim, mais de cinco décadas depois, o “disco do tênis” segue como um marco. Sobretudo, um retrato da juventude criativa, ousada e profundamente musical de Lô Borges, um dos nomes mais singulares da história da MPB.