Renato Russo convidou Marcelo Rubens Paiva para escrever “Tempo Perdido”.
“Tempo Perdido” faz parte do primeiro álbum da Legião Urbana lançado em janeiro de 1985.
Em 1985, durante o Carnaval em Brasília, um encontro entre Renato Russo e o escritor Marcelo Rubens Paiva resultou em um dos momentos mais curiosos da história do rock brasileiro. Enquanto trabalhava nas gravações do álbum Dois, Renato Russo convidou Marcelo para ajudá-lo a finalizar a letra de “Tempo Perdido”, que se tornaria um dos maiores clássicos da Legião Urbana.
Marcelo Rubens Paiva, que estava hospedado na casa de Dado Villa-Lobos, recusou a parceria. “Não sei fazer isso, sou escritor, não compositor”, disse, ainda despertando do sono. Como contou a Pedro Bial.
“Os caras ensaiavam o segundo disco às sete da manhã, às oito da manhã, só que a gente ficava a noite toda papeando, conversando, bebendo, e às sete da manhã começavam a tocar esse solinho. E eu tentando dormir. Mas eu acordava, ia pro café da manhã, e o Renato todo animadão, ‘ô Marcelinho, estou fazendo uma letra aqui’, e essa essa letra (de “Tempo Perdido”). E ele vinha com um guardanapo, dizendo ‘vamos fazer uma letra juntos’.
E completou. “Eu disse ‘acabei de acordar, todos os dias quando acordo…’ E acabou ficando uma participação completamente indireta em uma música que até hoje quando eu escuto eu arrepio, porque eu acho que é uma das músicas mais lindas da Legião”, admitiu o escritor.
Apesar da recusa, a amizade entre Renato Russo e Marcelo Rubens Paiva permaneceu forte. Marcelo acompanhava a banda desde antes do sucesso e, após a morte de Renato, escreveu um texto emocionado em homenagem ao músico, referindo-se a ele pelo apelido carinhoso “Alfredinho”, e destacando o respeito e afeto que nutria por ele. leia:
“Alfredinho”, o missionário que se vai
MARCELO RUBENS PAIVA
Acabei de saber da morte de um amigo, Renato Russo. Aliás, “Alfredinho”, como ele gostava de se apresentar.
Quando vinha a São Paulo, carregava no sotaque italiano. Nos chamava de “belo”. Orgulhava-se de sua ascendência.
Nos conhecemos antes do sucesso. Ele, um brasiliense misterioso, meio punk sem ser, com a Legião Urbana explorando os espaços de São Paulo: Rose Bom Bom, Napalm, Carbono 14.
Um brasiliense sabia de mais coisas que nós. E Renato sempre soube de mais coisas que nós. Trocávamos opiniões sobre livros. Eu lia Camus, ele lia Dante. Eu lia Kafka, ele a “Bíblia”. Eu o achava anacrônico. Ele me chamava de “niilista incorrigível”. Eu o achava puritano.
Renato se sentia um messiânico, um catequizador. Primeiro, a palavra. Não usava máscara, figurino. Renato era Renato, dentro e fora do palco.
Provocávamos: “Alfredinho, compre outra roupa”. Ele saía de casa de camiseta e jeans, e lá estava ele no palco com a mesma camiseta e jeans. Ele não precisava de artifícios, dominava como poucos a palavra.
Hospedava-se na casa da Fernanda Andrade, minha namorada. Havia um misto de euforia e desconfiança ante à abertura política e, consequentemente, ao renascimento do rock brasileiro.
Éramos quase garotos nos lançando às feras do showbizz. Não falávamos de contratos. Falávamos de um projeto coletivo: o desencanto. Éramos amargurados, só pensávamos em uma fórmula comum para exprimir nosso descontentamento.
Queríamos mudar o Brasil. Éramos socialistas. Éramos anarquistas. Na verdade, não sabíamos o que éramos. “Nasci em 62”, o nosso lema (música do Ira). “Cadê o Socialismo?”, cantava o Zero. “Ainda é Cedo”, cantava Renato.
Renato quase não dividia suas impressões. Trancava-se no quarto, enxugava uma garrafa de uísque e só descia para contar piadas. Éramos cúmplices de um movimento que não sabíamos alçar. Queríamos o grande público sem perdermos a identidade. Tínhamos medo de sermos corrompidos pela fama.
Eu dava entrevistas com camisetas de bandas amigas. A Legião, com uma camiseta estampada “Feliz Ano Velho”. Talvez fôssemos isso.
Embora Marcelo não tenha colaborado diretamente na composição, sua interação e o clima criativo entre os dois deixaram uma marca indireta em “Tempo Perdido”, consolidando a música como um marco da cultura do rock brasileiro e reforçando o legado de Renato Russo como compositor e ícone da música nacional.