“Beatles Anthology”: o projeto que só saiu por dinheiro, mágoas e uma fita cassete

The Beatles Antholoy foi lançado em 19 de novembro de 1995.

A trilogia do documentário The Beatles Anthology, lançada em meados dos anos 1990, nasceu bem antes — da cabeça de Neil Aspinall, roadie e figura muito próxima do círculo que cercava John, Paul, George e Ringo.

A ideia surgiu ainda nos anos 1970, com o projeto de um documentário para o cinema intitulado The Long and Winding Road. No entanto, o plano foi engavetado por causa de conflitos entre os quatro integrantes. A partir daí, diversos outros documentários acabaram sendo lançados de forma não oficial.

Neil Aspinall retomou a proposta pouco antes da morte de John Lennon, que inclusive havia aprovado o projeto e entendia o potencial comercial envolvido — afinal, os quatro teriam que se reunir para conceder entrevistas. O grande empecilho, porém, era George Harrison, que ainda guardava ressentimentos contra Paul McCartney. Com o assassinato de Lennon, mais uma vez a ideia acabou deixada de lado.

Naquele período, Paul tirou uma pausa da carreira, enquanto George investia em outros projetos, especialmente no cinema, por meio de sua produtora HandMade Films, fundada com Denis O’Brien. Entre os sucessos, destaca-se A Vida de Brian, do Monty Python. Além disso, Harrison integrou o supergrupo Traveling Wilburys, ao lado de Bob Dylan, Tom Petty, Roy Orbison e Jeff Lynne — apelidado pela imprensa de “Skiffle dos anos 80”.

Brigas e rixas.

O projeto de um documentário oficial dos Beatles voltou à tona no final da década de 1980, mas naufragou novamente quando a EMI decidiu pagar 1% extra em direitos autorais apenas a Paul. Como resposta, Yoko, Ringo e George processaram McCartney. A situação foi resolvida quando a EMI igualou os percentuais para todos.

Apesar disso, a rixa entre Paul e George continuava. Harrison frequentemente criticava McCartney em entrevistas. Em uma delas, chegou a dizer: “Paul me arruinou como guitarrista”. Também cunhou a célebre frase: “Não vai haver uma reunião enquanto John Lennon estiver morto” e acusou Paul de egoísmo: “Ele decidiu que os Beatles são ele”.

Mas tudo mudou em 1990. Aspinall retomou a produção do documentário, e George já não estava em posição de recusar: enfrentava dificuldades financeiras após o fracasso do filme Surpresa de Shangai, estrelado por Madonna e Sean Penn.

Quase à beira da falência, Harrison aceitou voltar ao projeto — mesmo com Paul envolvido — desde que algumas condições fossem atendidas: a produção ficaria a cargo de Jeff Lynne e o nome seria alterado de The Long and Winding Road para The Beatles Anthology.

Outra exigência foi que, durante a divulgação, o projeto não fosse anunciado como uma “reunião dos Beatles”. Segundo George: “Isso acontece toda vez que Paul quer publicidade. Mas os Beatles não existem mais”.

Houve um grande esforço para reunir vídeos, gravações de rádio e entrevistas, organizados em ordem cronológica. As entrevistas foram conduzidas por Jools Holland. Nenhuma das mulheres dos Beatles participou efetivamente do processo.

Pete Best também lucrou.

As colagens das capas dos três CDs foram criadas por Klaus Voormann, que inclusive substituiu a cabeça de Pete Best pela de Ringo Starr em uma famosa foto da fase em Hamburgo. Aliás cada álbum vinha com um livreto, e quando o material saiu em DVD um livro com todos os diálogos acabou lançado.

Ainda assim, Pete Best também lucrou com o projeto Anthology, já que foram incluídas músicas gravadas por ele no primeiro álbum da banda. Segundo o próprio Pete, Paul McCartney o telefonou e disse: “Alguns erros precisam ser corrigidos. Tem um dinheiro aqui que pertence a você, e você pode pegar ou não”. Pete aceitou. Dizem que o valor girava em torno de 1 milhão de libras — sua aposentadoria.

Outro motivo que impulsionou o lançamento do Anthology foi o grande volume de bootlegs e álbuns piratas no mercado. Com o projeto The Beatles at the BBC e os três volumes do Anthology, a banda e a EMI conseguiram oficializar e monetizar material que antes circulava ilegalmente.

Free As A Bird

O Anthology também marcou um momento de reconciliação entre Paul e Yoko Ono. Isso porque, pouco antes, ela havia sido atacada no livro The Lives of John Lennon, de Albert Goldman, que descrevia John como violento e esquizofrênico, e ainda sugeria que ele teria contribuído para a morte de Stuart Sutcliffe. O conteúdo foi tão ofensivo que Yoko chegou a considerar o suicídio. Paul, sensibilizado, saiu em sua defesa e pediu que os fãs boicotassem o livro.

Naquele mesmo período, Ivan Vaughan — amigo que apresentou Paul a John — faleceu, o que abalou emocionalmente McCartney.

Yoko entregou a Paul uma fita cassete com quatro canções inéditas gravadas por John em 1977, entre elas Free As A Bird, com Lennon ao piano. Paul, George e o produtor Jeff Lynne trabalharam na faixa, que era curta, criando uma ponte para estendê-la.

As gravações com Ringo aconteceram no estúdio Hog Hill, sendo a primeira vez que os três ex-Beatles gravaram juntos desde 1970. Outra música que entrou no radar foi Now and Then, mas a má qualidade do áudio fez com que fosse deixada de lado, sendo finalizada apenas em 2023.

Em fevereiro de 1995, o trio também trabalhou em Real Love, com Paul usando o mesmo baixo acústico que pertenceu a Bill Black em Heartbreak Hotel, de Elvis Presley.

O primeiro episódio de The Beatles Anthology estreou na TV britânica no dia 19 de novembro de 1995. Já Free As A Bird acabou lançada oficialmente dois dias depois, em 21 de novembro, pela BBC. Por fim, tanto Free As a Bird, quanto Real Love ganharam um videoclipe.