“Fame”: O Dia em Que Bowie e Lennon Criaram um Hit
“Fame”, lançada em 1975 se tornou o hit número 1 de Bowie nos Estados Unidos.
Jeffchat1, Public domain, via Wikimedia Commons / Tony Barnard, Los Angeles Times, CC BY 4.0
Em uma noite qualquer de 1974, em uma festa promovida por Elizabeth Taylor, David Bowie e John Lennon começaram a conversar — e mudaram a história da música. Bowie, que havia alcançado enorme sucesso com o personagem Ziggy Stardust no início da década de 70, já demonstrava incômodo com a fama e os rótulos que acompanhavam seu nome.
Foi ali, entre confissões e reflexões sobre a vida no estrelato, que nasceu a semente de “Fame”, o primeiro hit número 1 de David Bowie nos Estados Unidos.
A virada de chave: da androginia glam à alma do soul
Após o sucesso estrondoso do álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), Bowie não queria repetir fórmulas. “A fama em si não oferece muito além de um bom lugar num restaurante”, disse à revista Performing Songwriter. Preocupado em manter sua liberdade criativa, o artista decidiu mergulhar em um novo universo sonoro — mais visceral, mais negro, mais soul.
Lennon como conselheiro e colaborador
Na festa de Liz Taylor, Lennon compartilhou com Bowie os desgastes com empresários e a desilusão com o sucesso. A conversa ecoou forte. “Comecei a entender que, se você é criativo, já sabe o que quer. Que valor teria um empresário para alguém assim?”, relembrou Bowie.
Quando se encontraram novamente nos estúdios para as gravações do álbum Young Americans (1975), Bowie puxou um riff de guitarra não aproveitado pelo músico Carlos Alomar. Imediatamente rimou “fame” com “pain”. Lennon, que havia se juntado informalmente à sessão, entrou na brincadeira. O resultado? Um clássico instantâneo.
Alomar, inclusive, recusou um jantar com os dois gigantes para continuar trabalhando no estúdio. “Quando eles voltaram e ouviram o que eu gravei, Bowie disse: ‘A música está pronta’”. Conforme contou em entrevista à Mojo.
O som e a mensagem
“Fame” surgiu em poucas horas, mas sua influência dura até hoje. Além de ser um marco no abandono definitivo do glam rock, a faixa marcou a guinada de Bowie para a soul music. “Foi tudo muito rápido. Enquanto John e Carlos ajustavam a base da guitarra, eu escrevia a letra na sala de controle”, contou Bowie à revista Musician.
A ironia é que o próprio James Brown copiou o riff de Alomar em “Hot (I Need to Be Loved, Loved, Loved)”, reconhecendo na prática o poder da faixa.
Crítica à fama descartável
Por fim, mais do que um groove envolvente, Fame é uma crítica à obsessão pela celebridade. Bowie foi direto: “Hoje, o objetivo é ser famoso a qualquer custo. Não é a mesma coisa que fazer algo bom e, por isso, ser reconhecido. Isso vai deixar muita gente com um vazio enorme.”