George Harrison surpreendeu ao tocar e mudar a letra de In My Life em 1974
O desgaste emocional, mudanças nas letras de clássicos dos Beatles e a impaciência do público tornaram a experiência turbulenta.
O ano de 1974 foi um dos mais turbulentos para George Harrison. Logo no início, ele enfrentou a dolorosa separação de sua esposa, Pattie Boyd, que deixou o ex-beatle para ficar com seu melhor amigo, Eric Clapton. Apesar de um relacionamento desgastado, a partida de Pattie abalou George, que se refugiou no trabalho. Ele criou seu próprio selo, Dark Horse Records, gravou novas músicas, compôs com Ron Wood e se dedicou a projetos paralelos, como a produção de dois álbuns de Ravi Shankar e do duo Splinter.
O ponto alto do ano foi o lançamento do álbum “Dark Horse” e a turnê norte-americana, iniciada em novembro. Com uma banda formada por Billy Preston, Willie Weeks, Andy Newmark, Jim Keltner, Robben Ford, Tom Scott, entre outros, George embarcou em uma proposta ousada: unir rock, funk, jazz e música indiana em um mesmo espetáculo. O setlist contava com clássicos como “While My Guitar Gently Weeps”, “Something” e “My Sweet Lord”, além de canções de Billy Preston e longos momentos dedicados às peças indianas de Ravi Shankar.
Contudo, nem tudo saiu como planejado. O desgaste físico e emocional, somado aos ensaios intensos e alguns excessos, fizeram com que George perdesse a voz, o que comprometeu suas performances. Ele passou a cantar algumas faixas em tom mais baixo ou simplesmente recitá-las, alterando melodias e letras de forma inusitada. Isso gerou estranhamento no público, que esperava as versões originais dos sucessos dos Beatles. O fato está na biografia, “George Harrison: o beatle relutante”.
Mudança de letras.
Um fato curioso é que durante esta turnê George mudou a letra em Something, por exemplo, George cantava “If there’s something in the way/ we can move it”, em vez da linha original “Something in the way/ she moves”, possivelmente fazendo referência ao fim de seu casamento.
Já em While My Guitar Gently Weeps, ele substituía “gently weeps” por “gently smiles”, trazendo um toque de otimismo oriental à canção originalmente melancólica. Uma das grandes surpresas dos shows foi sua interpretação de In My Life — inesperada, já que poucos imaginavam George cantando uma música de Lennon/McCartney naquele momento. Além disso, ele fez uma espécie de ‘heresia ao contrário’, alterando a letra para “In my life I love God more”, modificando o clássico do álbum Rubber Soul! Veja:
Impaciência do público.
A plateia também demonstrava impaciência com os longos momentos de música indiana, levando Shankar a se ausentar temporariamente dos shows após um problema de saúde.
Durante as apresentações, George demonstrava frustração com a frieza do público, chegando a reclamar diretamente com a plateia que muitas vezes pedia canções dos Beatles. Harrison chegou a declarar: “Se as pessoas quiserem ouvir músicas dos Beatles que vejam um show dos Wings”. Em algumas ocasiões, o entusiasmo de Billy Preston chegava a eclipsar Harrison, o que não paseatsou despercebido pela crítica.
Ainda assim, momentos memoráveis aconteceram, como o encontro com John Lennon nos bastidores do Madison Square Garden, no último show da turnê, em 20 de dezembro. John chegou a cogitar subir ao palco, mas desistiu na última hora, gerando um momento de tensão entre os dois. A briga provavelmente se deu pelo fato de que no dia 29 de dezembro do mesmo mês saíra a decisão judicial oficial da dissolução dos Beatles, e John e George descordavam de alguns pontos.
A turnê de 1974 não foi um fracasso absoluto, mas também não atendeu às expectativas. George enfrentou duras críticas por seu repertório e pela tentativa de pregar a filosofia Krishna. Afinal, o público estava mais interessado em nostalgia do que em reflexões espirituais. Ainda assim, ele seguiu em frente, mantendo sua convicção de que a evolução artística estava acima das pressões comerciais. Essa experiência marcaria profundamente sua carreira e definiria seu caminho nos anos seguintes.