Discussões e segredos: como foram as últimas reuniões dos Beatles
Os Beatles acabaram oficialmente em 10 de abril quando Paul McCartney anunciou deixar a banda.
Em setembro de 1969, logo após o lançamento do álbum Abbey Road, os Beatles tiveram duas reuniões cruciais. A primeira, realizada no início do mês, contou com a presença de John, George, Paul, Allen Klein, Yoko e, possivelmente, Linda. Lennon gravou a conversa para que Ringo pudesse ouvi-la depois, já que ele estava ausente devido à recuperação de uma cirurgia.
Mark Lewisohn, renomado biógrafo da banda, afirma possuir essa gravação, inclusive Gilvan Moura, especialista e tradutor das principais biografias dos Beatles no Brasil, comenta o fato em um vídeo no seu canal na Beatles School. A gravação inicia com Lennon dizendo: “Ringo – você não pode estar aqui, mas é para você ouvir o que estamos discutindo.”
Durante a conversa, John sugere que o grupo já pense em novos singles para o final do ano e propõe que o próximo álbum tenha uma divisão mais equilibrada: quatro músicas para ele, Paul e George, e duas para Ringo, caso ele desejasse participar.
Em outro momento, Paul reconhece que passou a valorizar mais as composições de George: “Até esse álbum eu achava que as músicas de George não eram tão boas.” Irritado, Harrison responde: “Isso é uma questão de gosto. No final das contas, as pessoas gostaram das minhas músicas.”
Lennon então sai em defesa de George e lembra que ninguém na banda gostava de Maxwell’s Silver Hammer—canção de McCartney presente em Abbey Road—mas, ainda assim, todos a gravaram. Ele sugere, inclusive, que Paul doe algumas de suas músicas para outros artistas, como Mary Hopkins.
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A gravação de Lewisohn revela que, até aquele momento, em 8 de setembro, John Lennon não demonstrava intenção de sair da banda. Pelo contrário, ele parecia interessado em continuar produzindo com os Beatles.
No entanto, em 19 de setembro, uma segunda reunião ocorreu, desta vez com Ringo presente, além de Paul, Allen Klein e Yoko. George não compareceu, pois cuidava da mãe, que estava com câncer terminal. O encontro foi marcado por uma intensa discussão entre John e Paul.
McCartney sugeriu que a banda voltasse aos palcos, fazendo pequenos shows e um especial de TV no final do ano. John se mostrou relutante, enquanto Allen apoiou a ideia de Paul.
Lennon argumentou que, desde Magical Mystery Tour, McCartney tentava assumir o controle da banda, impondo canções. Citou como exemplo o projeto Get Back, no qual ele próprio tinha apenas I Am the Walrus e Strawberry Fields Forever, enquanto Paul sempre trazia quatro ou cinco músicas. Paul rebateu, dizendo que John precisava se esforçar mais na produção.
Irritado, Lennon chamou McCartney de idiota e declarou que estava saindo da banda. Naquele momento, apenas Yoko e Allen Klein sabiam da decisão de John, tomada logo após sua participação no Festival de Toronto, em 13 de setembro.
Apesar disso, Allen e Paul alertaram Lennon de que ele não poderia anunciar sua saída imediatamente, pois isso colocaria em risco um acordo recém-fechado que lhes garantiria 25% das vendas de Abbey Road e dos próximos discos. Yoko também o convenceu de que manter silêncio era a melhor estratégia, e John concordou.
Segredo até 10 de abril.
A partir daí, o segredo foi mantido até 10 de abril de 1970, quando Paul anunciou publicamente que estava deixando a banda, fato premeditado e coordenado com o periódico Daily Mirror. Para Lennon, isso foi uma traição, pois ele havia sido o primeiro a decidir sair. Na realidade, Paul estava frustrado com Allen Klein e os outros Beatles, que tentaram barrar o lançamento de seu primeiro álbum solo, McCartney I, que coincidia com Let It Be.
Com base nesses acontecimentos, o radialista Howard Stern entrevistou Paul McCartney em seu programa de rádio e podcast, questionando-o sobre por que ele não seguiu com os Beatles ao lado de George e Ringo após a saída de John.
Stern também abordou o fato de Paul ter subestimado a qualidade das músicas de George. Ele sugeriu que os Beatles teriam sido incríveis se tivessem reunido os trabalhos solo de Harrison—como All Things Must Pass—com McCartney I. Paul respondeu de forma polida: “Eu entendi isso, mas Howard, é uma família, e quando famílias brigam, há dor emocional. Você não consegue tomar uma decisão como essa naquele momento, você está afetado. Logo, não ia acontecer. Creio que cansamos de tudo.”
Em outra entrevista a Howard Stern, Paul reafirmou que foi Lennon quem saiu da banda, mencionando inclusive a reunião descrita por Mark Lewisohn.