The Beatles: saiba as curiosidades por trás do álbum Abbey Road

“Abbey Road” fechava o ciclo dos Beatles em 1969

Por Sandro Abecassis

“Let It Be”, ainda soava irregular e ralo para Os Beatles, as gravações que ocorreram em janeiro e deram origem ao álbum e filme, eram para soar o mais cru possível, sem overdubs. E assim foi.

O show do telhado terminava naquela fase. No dia 3 de fevereiro começaria outra bem mais chata e burocrática. John Lennon havia persuadido George e Ringo sobre chamar Allen Klein para gerir os negócios dos Beatles, que ia mal das pernas. Quando Paul soube, ligou para Mick Jagger, afinal Allen tinha trabalhado para Os Stones, e na frente dos outros Beatles, perguntou como era Klein, Mick disse: “Bom, ele é legal, se vocês gostam deste tipo de coisa”. Mas Jagger alertou sobre os problemas que tiveram com Allen sobre direitos autorais.

O fato é que por voto vencido, 3 x 1, Paul perdeu, mas os Eastman viraram advogados dos Beatles, e pelo menos estavam por perto para controlar Klein, era o que se imaginava na época.

Klein passou meses cortando gastos e demitindo gente, Alistair Taylor, Ron Kass, o próprio Neil Aspinall, que depois foi readmitido.

Allen Klein exigia 20% pelos seus serviços, Paul achava demais, e queria que ele levasse 15%

Em 9 de maio de 1969, iria acontecer uma gravação com Os Beatles no Olympia Studios, não ocorreu porque John insistia para Paul assinar. Paul aceitou os 20% com as ressalvas que ele não podia ficar com os ganhos da EMI, ou seja, só valeria para os aumentos que ele conseguisse. Segundo consta na biografia, de Barry Miles, “Many Years From Now”

Contudo, naquele período Allen Klein ganhou mais dinheiro para Os Beatles em 18 meses do que Brian Epstein durante toda época que esteve à frente dos Beatles. As manobras financeiras envolviam a NEMS, ATV, Northern Songs. Mas desconfiada, Linda McCartney foi certeira em uma fala.

“Foi uma época esquisita, Allen Klein estava aprontando alguma coisa horrível. John, com klein em um ouvido e Yoko no outro, rodopiava tanto ao redor de Paul que era de dar pena. Uma coisa tão besta. Aquilo me fez lembrar, “ Ivan, o terrível”, o filme de Eisenstein: ficavam todos cochichando. Com John foi assim; ele estava ficando muito amargo com Paul, e olhe que Paul queria era não fazer um baita contrato com Klein, só isso nada mais”. 

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As gravações de Abbey Road

Em 12 de março Paul e Linda se casaram. No dia 14 de abril John levou para o estúdio a canção “The Ballad Of John And Yoko”, George estava fora do país e Ringo estava filmando, The Magic Christian. A gravação aconteceu somente com John e Paul, gravando bateria e baixo. Apesar de toda aquela “arenga” entre os dois, as gravações ocorreram tranquilamente. 

O Abbey Road foi gravado a conta gotas, desde fevereiro a banda ia para os estúdios gravar alguma coisa e os Beatles só apareciam quando tinham que gravar algo. Em julho, John, Yoko, Julian e Kyoko sofreram um acidente na Escócia, Yoko teria que ficar de cama alguns dias. Lennon encomendou uma cama e colocou dentro dos estúdios para que Yoko, com um microfone suspenso para caso ela precisasse dar alguma opinião, dependência emocional e paranoia era pouco.

Veja a galeria de fotos deste período, com fotos de Merle Firmark, com o registro de Yoko na cama

Abbey Road traz “Come Together” na faixa de abertura, Paul alertou John que a música parecia, “You Can’t Catch me”, de Chuck Berry, e John reconheceu isso também, eles desaceleram o ritmo, com outra linha de baixo. Mas a música ia causar problemas, como um processo movido por Morris Levy, pelo uso de riff e frase de “You Can’ t Catch me” em, “here comes old flat-top”, de Chuck Berry. 

O processo levaria anos, e o acordo foi que John gravasse um disco de Covers, que virou o álbum “Rock And Roll” de 1975

A canção originalmente foi criada para a campanha de Timothy Leary quando se candidatou a governador da Califórnia, e John mudou a letra para usar com Os Beatles.

Na segunda faixa, “Something”, composição de George Harrison, era inspirada em sua mulher, Pattie Boyd. A canção se tornou uma das músicas mais regravadas dos Beatles, inclusive, por Frank Sinatra, Ray Charles, Smokey Robinson e James Brown. Uma conversa entre os três gravada em 1969, e que consta no livro de Barry Miles, traz o seguinte diálogo. 

Então, confira

John Para Paul: Os compactos sempre ficaram para nós dois. Temos mercado dos compactos, e eles (George e Ringo), não tem nada. Quero dizer, nunca oferecemos um lado B para o George, poderíamos ter dado isso a ele um monte de vezes, mas como éramos nós dois, você ficava com o lado A e eu com o B.

Paul para John: Bom, eu acho que este ano, nossas músicas eram melhores que a de George. Hoje, as dele são tão boas quanto as nossas. 

George: Isso é mito! A maioria das músicas deste ano eu compus ano passado ou retrasado. Talvez agora eu já não me importo se vocês vão gostar ou não delas – Simplesmente faço. 

Em Maxwell ‘s Silver Hammer que estava lá nas gravações de Let It Be, a composição de Paul era um bubblegum, e era odiada pelo modo como Paul valorizava esta canções fazendo os outros Beatles gravarem mais 30 takes dela.

“Oh Darling”, a faixa de Paul é inspirada em baladas dos anos 50. Paul conta sobre a música. “Eu me recordo principalmente de querer a voz certa, desejando que ficasse boa. Acabei tentando aquilo de manhã quando entrei no estúdio. Tentei fazer de todo jeito, com microfone na mão ou fixo. Por fim, consegui um vocal que me deixou mais ou menos satisfeito”.

John tentou gravar “Oh Darling”.

A composição de Ringo, “Octopu´s Garden”, também já tinha sido apresentada nas gravações do Let It Be. A música foi composta na Sardenha, na companhia de Peter Sellers em 1968, quando Ringo deixou Os Beatles durante as gravações do Álbum Branco. 

“I Want You (She ‘s So Heavy), composição de John fecha o lado A. Uma canção densa, com poucos versos, tanto que recebeu muitas críticas, e John respondia que era um pedido de socorro, e quem está pedindo socorro fala poucas palavras. A música tem o famoso moog, e ruídos brancos, e um fechamento abrupto proposital. 

Dizem que é considerada a primeira música de Heavy Metal, mas naquele momento ali, já acontecia alguma coisa com Led Zeppelin e Black Sabbath. Talvez Helter Skelter possa ser. 

A super vibe de “Here Comes The Sun”, composta por George Harrison, abre o lado B. A canção foi composta por Harrison no jardim de Eric Clapton, depois das intermináveis reuniões de negócios dos Beatles, e dos longos invernos na Inglaterra. 

“Era um lindo dia de sol e peguei o violão, que foi a primeira vez que toquei violão em algumas semanas porque estava muito ocupado. Simplesmente chegou. E terminei mais tarde, quando estava de férias na Sardenha.” Conforme contou.

Na sequência, “Because”, composição de John Lennon, que segundo o ex-beatle surgiu depois que Yoko tocou Sonata ao luar de Beethoven, ele pediu para ela tocar ao contrário, e surgiu a essência de “Because”. As harmonias de vozes foram extremamente ensaiadas e George Martin e Geoff Emerick adicionaram overdubs na masterização.

Na sequência, o começo do medley e hora de Paul cutucar Klein em “You Never Give me Your Money”, McCartney conta sobre a composição:

“Essa ai era para eu descer o pau nas atitudes de Allen Klein com a gente, nada de grana, só aqueles papéis gozados. Só promessas, nada de concreto. Basicamente é uma música sobre não ter fé em alguém.” Conforme contou.

Os grilos cantavam iniciando “Sun King”, uma particularidade desta música, ela tocou na minissérie “Anos rebeldes” no Brasil, por volta de 1992. A canção veio para John Lennon inspirada em um sonho, mas provavelmente também porque estava lendo a biografia de Luís XIV, conhecido como, “Rei Sol”. A linha de baixo na introdução e os Beatles cantando em Italiano e espanhol e até um obrigado em português deram um charme para a canção. 

“Mean Mr. “Mustard”, obra de John Lennon nasceu ainda na Índia, e falava de um homem que era mão de vaca e guardava o dinheiro no reto e em outros lugares. John não gostava da música. 

A sequência com “Polythene Pam”, é uma continuação de Mr. Mustard e a canção também nasceu na Índia, inspirada em Stephanie, namorada de Royston Ellis, poeta beat que Os Beatles em 1960 acompanharam durante um recital em Liverpool. Em 1963, John encontrou novamente com Ellis, e em entrevista à revista Playboy em 1980, John disse: 

“Eu estava com uma garota e Royston tinha uma namorada que ele queria que eu conhecesse. Disse que ela se enrolava em um saco plástico de polietileno e era assim mesmo. Ela não usava kit nem bota de cano alto, isso eu meio que inventei na letra. Sexo pervetido em um saco plástico…eu só estava procurando alguma coisa para compor”. 

John carregou bastante no sotaque de Liverpool ao gravar a música.

Na sequência do medley “She Came In Through The Bathroom Window”, Paul escreveu sobre uma garota que colocou uma escada até um banheiro de sua casa, e simplesmente entrou. O nome dela era Diane Ashley. 

A parte da letra,And so I quit the police department, And got myself a steady job” (E logo eu deixei o departamento de polícia, E arranjei um trabalho fixo). McCartney contou em 2002 que se inspirou quando estava em Nova Iorque, sentado no banco de trás de um taxi, e viu no painel o apelido do motorista com uma frase, “Quits, ex-departamento de polícia”, e guardou a frase para uma canção.

Em “Golden Slumbers”, Paul compôs na casa do seu pai Jim em Liverpool, inspirado no acalanto de Thomas Dekker do século XVII. 

“Eu achei a letra repousante, um acalanto muito bonito. Mas como não sei ler música, não consegui entender a partitura. Assim, peguei só a letra e compus minha própria melodia. Lembro que tentei fazer um vocal bem forte, porque o tema não era suave. Assim realcei a força do vocal e fiquei muito satisfeito com o resultado”. 

Seguindo com “Carry The Weight”, Paul volta a detonar Allen Klein, sobre todo o peso que a banda estava carregando nas costas naquele momento. George Martin incluiu nesta sequência, doze violinos , quatro violas , quatro violoncelos , contrabaixo , quatro trompas , três trompetes, trombone e trombone baixo.

O final culmina com a passagem para “The End”, e o famoso solo de bateria de Ringo. Quanto ao solo de guitarra da canção, os três Beatles gravaram cada parte um trecho.

A curta “Her Majesty”, com seus 23 segundos, indicava quanto John e Paul estavam se distanciando e McCartney compôs a música na Escócia. Como ele mesmo contou na biografia de Barry Miles, “A letra era basicamente monarquista, no tom só um pouquinho desrespeitoso, mas muito irônico. Era quase que uma declaração à rainha”. 

A capa

Uma das capas mais cultuadas de todos os tempos é a de Abbey Road. O local hoje em St. John´s Wood virou um ponto turístico de Londres, cheio de gente todos os dias querendo atravessar e fotografar na curta zebra. 

A ideia surgiu da cabeça de Paul McCartney, e as fotos aconteceram no dia 8 de agosto de 1969, pelo fotógrafo Ian Macmillan, que precisou de uma escada e ajuda de um policial para segurar o tráfego. Em 15 minutos ele fez uma sequência com várias fotografias. Ian escolheu a que estava mais alinhada com as pernas dos três em “V”. 

A teoria da conspiração na época dissecou a capa em busca de provas que Paul estava morto. Inclusive, mostrando que os quatro representam um cortejo fúnebre, com John como um clérigo, Ringo, um padre, Paul o defunto (como costuma-se enterrar mortos em algumas culturas), segurando o cigarro com a mão direita, sendo canhoto, e George o coveiro. O fusquinha ainda tem a placa, “IF28”, que as pessoas interpretam se Paul estivesse vivo teria 28 anos, o que não é verdade, Paul completou 27 anos em 1969. 

O único intruso na capa é o senhor Derek Seagrove, que aparece no canto direito do álbum, mas no making off da sessão os Beatles interagiram com outras pessoas que passavam por ali. Linda McCartney fez os registros do making off. 

Por fim, Abbey Road teve seu lançamento em 26 de setembro de 1969. Nessa época John já havia anunciado para os outros que estava fora da banda. Você confere está história na matéria abaixo: