Keith Richards recorda sua infância: do pós-guerra às brincadeiras.

Keith Richards revelou em 2010 grande parte das suas lembranças no livro autobiográfico, Vida.

Keith Richards lançou em 2010, sua autobiografia, “VIDA”, onde conta detalhes desde a sua infância até o auge dos Stones. As histórias vão de lembranças de guerra, relacionamentos com os pais, descoberta da música, começo da fama, amores, criação de músicas, shows, bebedeiras e confusões de alguém que viveu tudo a 220 km/h. 

A forma como o guitarrista dos Stones escreve é como se estivéssemos vendo ele mesmo falar. Portanto, o músico conseguiu casar as interessantes histórias de vida com cada frase, cada lembrança. 

Como por exemplo, quando lembra da infância, marcada pela segunda guerra mundial. Richards nasceu em 18 de dezembro de 1943, durante o conflito, filho de Bert e Doris, a família morava na zona leste de Londres, em Dartford, ao longo do Tâmisa. 

Keith conta que nasceu durante um bombardeio nazista. ”De acordo com a minha mãe Doris, isso aconteceu durante um ataque aéreo. Não posso discutir, afinal os quatros lábios estão cerrados”. Diz no livro.

Blitzkrieg alemã

Londres chegou a ser alvo de intensos ataques da Alemanha de Hitler, com destruição e mortes para todos lados. “Onde eu cresci era só virar uma esquina e enxergar o horizonte, terras incultas, mato, talvez uma ou duas casas estranhas com aspecto de Hitchcock, que de algum modo milagroso acabaram escapando”. Recorda

O guitarrista lembra que sua mãe conta que bombas caíram na rua da sua casa, inclusive matando vizinhos. 

“Minhas lembranças mais antigas são aquelas imagens tradicionais do pós-guerra em Londres. Paisagens de entulho, ruas desaparecidas pela metade. Uma parte continuou desse jeito por mais de dez anos”.

Mas no pós-guerra uma lembrança ficou clara na mente do garoto Keith, a falta de insumos básicos, como açúcar. “Acho que a falta de não ter açúcar, doces e balas foi uma coisa boa, mas não me deixava feliz na época”. 

“O fato de eu não poder comprar um pacotinho de balas até 1954 diz muito sobre as reviravoltas e mudanças que duram tanto tempo após uma guerra. Aquela já havia acabado nove anos antes de eu realmente poder entrar e dizer – caso tivesse dinheiro – “Vou querer um pacotinho disso” – Toffees, Anisee Twists”. O som daquele tíquetes carimbados. Sua cota era sua cota. Um saquinho de papel de embrulho pequenininho por semana”. Lembra Richards.

A solução que o jovem encontrou, era aquela já comum da idade, roubar alguns doces de lojas. “Pra mim sempre foi uma encrenca afanar coisas, na Lower East side ou loja de doces em East Wittering, perto de casa em West Sussex”.

Pai ferido na guerra.

O pai de Keith, Bert lutou na segunda guerra e acabou ferido gravemente por um morteiro, com os companheiros a sua volta mortos. O ferimento deixou Bert com uma cicatriz enorme de cima abaixo da sua coxa esquerda. “Ele fora o único sobrevivente daquele ataque, que deixou uma marca bem feia, uma cicatriz lívida, que riscava sua coxa esquerda até em cima. Sempre quis ter uma, quando crescesse”. Conta Keith.

O guitarrista relata que a cicatriz tirou o pai da guerra, contudo deixou Bert com pesadelos para o resto da vida. “Marlon, meu filho, morou com Bert nos Estados Unidos enquanto era criança, e eles costumavam acampar juntos. Marlon diz que Bert acordava no meio da noite gritando, “Cuidado Charlie, estão atirando”. 

Acima de tudo, uma criança comum.

O modo de ser criança é quase universal, e um relato de Keith neste período era um hábito comum que também muitas crianças com bicicletas no mundo inteiro chegaram a fazer:

“Uma coisa que a gente tinha era bicicleta. Eu e meu chapa, Dave Gibbs, que vivia em Temple Hill, decidimos que seria legal fixar abas pequenas de papel-cartão na roda de trás, para parecer um barulho de um motor quantos os raios do aro raspasse nelas. Daí ouvíamos: `tirem essa porcaria das rodas, estou tentando dormir”.

Outra lembrança de Richards também muito comum a todas as crianças era o pavor de dentistas.

“O dentista era um sujeito que havia sido do exército. Meus dentes ficaram podres por causa disso. Tinha tanto medo de ir ao dentista que por volta dos anos 70, isso provocou consequências terríveis, uma boca cheia de dentes escuros. Os dentistas ganhavam mais dinheiro arrancando dentes do que obturando. Então, eles queriam tirar tudo. Depois de um mínimo borrifo de gás, simplesmente arrancavam seu dente com toda a força e a gente acordava bem no meio da extração”. Conforme consta na autobiografia.

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Um susto depois de aprontar.

Certo dia, Keith descobriu com um amigo que o quitandeiro guardava tomates podres dentro de uma caixa no quintal. Sendo assim, eles foram lá, abriram as caixas e começaram uma guerra de tomates, jogando um no outro, assim como nos muros e janelas das casas.

A mãe de Keith, Doris, descobriu e resolveu dar um susto nele. Então, Keith conta no diálogo: 

“Eu chamei o homem.”

“Do que você está falando?”

“Eu chamei o homem. Ele vai te levar embora porque você está descontrolado.”

Por fim, desabei.

“Ele disse que chegava em quinze minutos. A qualquer instante ele vai aparecer pra te levar para o orfanato.”

Então, fiz cocô nas calças. Eu devia ter seis ou sete anos.

“Oh, mãe!” Estou de joelhos, suplicando, implorando”.

“Estou até aqui com você. Não quero mais você.”

“Não, mãe, por favor…”

“E, tem mais. Vou contar para o seu pai.”

“Oh, mããããe.”

“Aquele dia foi cruel. Ela não queria nem saber. Ficou me torturando por mais de uma hora até eu me acabar de chorar e cair no sono e, enfim, perceber que não tinha homem nenhum e que tinha sido só um susto”.