Legião Urbana, saiba como surgiu a canção “Quase Sem Querer” de 1986.

“Quase sem querer” se tornou uma das canções clássicas do rock dos anos 80 no Brasil. 

O cenário do rock brasileiro nos anos 80 ficou marcado por um dos períodos mais criativos e efervescentes. Bandas como Blitz, Paralamas do Sucesso, Titãs, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, Nenhum de Nós, Uns e Outros, Magazine, Barão Vermelho, RPM, Plebe Rude, Ira! e Legião Urbana compuseram a trilha sonora que marcou toda uma geração.

Neste contexto, o Brasil enfrentava desafios significativos, como a persistente inflação e desemprego. Além disso, o país testemunhou o encerramento da ditadura militar clamando por eleições diretas para presidente, com o movimento “Diretas Já”. Fato que só se concretizou no final da década.

Esses acontecimentos turbulentos serviram como fonte de inspiração para as letras provocativas das bandas, que frequentemente criticavam o papel do Estado. Exemplos incluem a contundente “Polícia” dos Titãs e a poderosa crítica social de “Alagados” dos Paralamas do Sucesso. Apesar de muitas músicas também carregarem um apelo político-social, como por exemplo, com “Que País é este?”, a Legião Urbana destacou-se ao abordar temas mais próximos à vivência da juventude, explorando questões como relacionamentos e reflexões por meio de narrativas envolventes 

Um exemplo, é a canção, “Quase Sem Querer”, presente no álbum Dois, lançado em 1986. A música, como era comum na Legião Urbana, foi criada dentro do próprio estúdio, com trechos de canções para depois Renato Russo colocar a letra. Como conta o produtor do álbum Mayrton Bahia, no livro, “Discobiografia legionária” da jornalista Chris Fuscaldo. 

“As ideias a maioria das vezes chegavam soltas no estúdio, fragmentos que poderiam ser a primeira, a segunda ou qualquer outra parte da música viravam um drama, porque importante era montar uma melodia inteira. Dessa forma apareceram “Fábrica” e “Quase Sem Querer”. 

Curiosidades sobre a canção.

Em “Quase Sem Querer” o violão tocado por Renato Russo entrou na última hora, mas foi fundamental para a harmonia da música. Uma curiosidade, a faixa era considerada por muitos críticos como um plágio de “Ask” dos ingleses da banda The Smiths, no entanto o argumento não procede, pelo fato de que o álbum da Legião teve seu lançamento em Junho de 1986 e o single “Ask” dos Smiths somente em outubro daquele ano. 

A letra de “Quase Sem Querer” fala sobre a busca de identidade e relacionamentos. Assim como a valorização das experiências emocionais, como por exemplo, aceitação, assim como sensibilidade.

Uma parte da letra curiosamente veio através de uma frase do técnico de som Amaro Moço, quando Renato tentava fazer letras mais criativas e se cobrava por isto. Amaro disse: “Não esquenta não, Renato. É como já cantou o Milton Nascimento, qual palavra nunca foi dita?”, fazendo referência a música, “Paula e Bebeto” de Milton, quando ele canta, Pena, que pena que coisa bonita, qual a palavra que nunca foi dita”. 

Em “Quase Sem Querer”, a inspiração da letra de bituca, deu origem a frase: Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?”

Homenagem a Caetano.

No verso, “O infinito é realmente um dos deuses mais lindos”, a inspiração surgiu através de uma música de Caetano Veloso chamada “Oração ao tempo”, de 1979, quando Caetano canta, “Tempo, tempo, tempo, és um dos deuses mais lindos”. Ou seja, uma confirmação de Renato aos versos de Veloso.

Marcelo Bonfá, em entrevista ao Gshow da Rede Globo, revelou que o álbum “Dois” representou uma transição da banda. 

“Como indivíduo, esse disco marca uma transição para a vida adulta. A gente estava lidando com um material muito denso, num momento complicado das nossas vidas. A gente estava vindo para o Rio de Janeiro e aconteceu tudo muito rápido.” Conforme relatou

Por fim, o álbum “Dois” vendeu 900 mil cópias. 

Fonte Júlio Ettore