Deep Purple: álbum “Burn” completa 50 anos.

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“Burn” marca a estreia de David Coverdale nos vocais e Glenn Hughes no baixo do Deep Purple. 

O último disco de Ian Gillan e Roger Glover do Deep Purple foi o álbum “Who Do You Think We Are”, gravado na Itália e na Alemanha logo após a produção e gravação ao vivo do “Made In Japan”, de 1972. 

Naquela ocasião, pelo final de 1972, o clima entre a banda já estava pesado, com a gravadora Warner segurando o lançamento do álbum ao vivo nos Estados Unidos temendo que o próximo trabalho fosse engolido. 

Além disso, Ritchie Blackmore adoeceu, mas mesmo assim, isso não impediu os conflitos com Ian Gillan, que de forma cortês informou a banda em dezembro de 1972 que estava deixando o Deep Purple. Sendo assim, ele deu um prazo de seis meses para a banda encontrar outro vocalista. O baixista Roger Glover seguiu os mesmos passos e também resolveu deixar o grupo.

Portanto, no dia 29 de junho de 1973, Ian Gillan e Roger Glover fariam o último show com o Deep Purple. 

Fase MKS III

Em busca de novos membros, o primeiro integrante a compor a nova formação foi o baixista Glenn Hughes. O músico tocava baixo, cantava e integrava uma banda chamada Trapeze. A princípio, o Purple iria continuar como um quarteto, com Hughes assumindo os vocais e baixo. No entanto, Ritchie Blackmore optou por ir em busca de um vocal. 

Paul Rodgers, do Free, chegou a ser cogitado, mas o vocalista não aceitou pelo fato do seu envolvimento com uma nova banda chamada, Bad Company. 

O Deep Purple então resolveu testar alguns vocalistas, um deles era o jovem de 21 anos David Coverdale. No teste, Coverdale cantou por mais de seis horas, entre as músicas, “Yesterday” e “Long Tall Sally”. A banda decidiu contratar Coverdale enquanto bebiam em Bar. 

David lembra do fato: 

“Foi bem interessante que em minha audição, nós estávamos apenas fazendo jams, o que é algo que eu realmente adoro – eu amo criar coisas enquanto tocam, tenho várias ideias de músicas desse jeito. Ritchie me disse: ‘você consegue cantar rock, vamos ver o que pode fazer com uma balada’. Então tocamos ‘Yesterday’, dos Beatles, e Jon Lord disse que aquilo o levou às lágrimas.” 

Deep Purple: álbum "Burn" completa 50 anos.
David Coverdale em 1973 com o Purple. Créditos Memory Lane

E ainda completou:

“Eles deram um intervalo para conversar e eu estava sentado no piano, nervoso, mas a coisa estava um pouco mais suave por causa do álcool. Glenn apareceu e nós estávamos cantando todos esses clássicos – estilo Stevie Wonder e Aretha (Franklin), então ele começou a fazer vocais em harmonia. Foi extraordinário. Daí, todos na banda entraram. Ritchie disse: ‘Quer cantar alguma das nossas? Você conhece alguma? ‘Strange Kind of Woman’…?’ Então eu cantei, nesse estilo meio soul / blues, e Ritchie me disse: ‘Isso é exatamente como eu a ouvia quando a compus’. Ele ainda fez meu elogio favorito: ‘Você tem a voz de um homem’. Eu tenho a voz de um homem!”

O Nascimento de “Burn”.

Deep Purple: álbum "Burn" completa 50 anos.

Em setembro de 1973, a nova formação, com David Coverdale (vocais), Ritchie Blackmore (guitarra), Jon Lord (teclados e órgão), Glenn Hughes (baixo e vocais) e Ian Paice (bateria), se retirava para o castelo Clearwater para compor o novo álbum, “Burn”.

Coverdale participou da composição da faixa título, “Burn”, assim como, “Mistreated” e “Sail Away”. No álbum, Glenn Hughes dividia os vocais com David, além do mais o disco trouxe uma pegada voltada para boogie, funk e soul, mas ainda trazendo a potência de solos de Blackmore e a harmonia melódica de Jon Lord nos teclados. 

Aliás, uma curiosidade, dizem que o riff inicial de “Burn”, Ritchie Blackmore se inspirou na abertura da canção, “Fascinating Rhythm ” de George Gershwin. Veja:

A letra de “Burn” conta a história de uma mulher que avisou uma aldeia que ela era uma bruxa, mas ela é desacreditada e chamada de mentirosa. E então, como forma de vingança, ela com o poder da sua mão resolve queimar a vila. 

A capa de “Burn”, mostra justamente os integrantes da banda estilizados em velas púrpuras queimando. Apesar da música original ter a duração de 6 minutos, existe uma faixa reduzida com 3:42 para o rádio.

Mais uma vez a gravação de um álbum do Deep Purple aconteceu em Montreux na Suíça, no mês de novembro de 1973. Sendo lançado em 15 de fevereiro de 1974. 

As faixas.

Na sequência de faixas, “Might Just Take Your Life”, um hard rock tradicional, que traz a excelência de Jon Lord nos teclados, e um destaque da canção são as divisões de vocais entre Glenn Hughes e Coverdale. 

A letra aborda um possível pacto com o diabo, de forma sutil, expressando: “I’ve been called by many names, And all of them are bad” (Fui chamado por muitos nomes, e todos são ruins). Nos demais versos, ressalta ter cumprido as promessas, porém, alerta para a fragilidade dessa situação, sujeita a terminar a qualquer momento.

“Lay Down, Stay Down”, principalmente na versão remasterizada lançada em 2004, evidencia a potência do Deep Purple naquele momento. Como por exemplo, os duetos entre os riffs de Blackmore e as viradas de Ian Paice. Ao mesmo tempo, a canção traz influência do jazz no solo de Richie. A letra é simples, sobre alguém que termina um relacionamento e quer logo começar outro. 

“Sail Away”, fecha o lado A do álbum, é uma composição de Blackmore e Coverdale, um blues com um baixo trazendo uma sonoridade voltada para o funk e cheio de efeitos. A letra de uma forma poética é sobre navegar até os traumas do passado. 

Deep Purple: álbum "Burn" completa 50 anos.
Glenn Hughes, Ritchie Blackmore, Ian Paice, Jon Lord e David Coverdale.

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Lado B

“You Fool No One”, abre o lado B mostrando a versatilidade de Ian Paice na bateria, com o excelente trabalho em percussão em que muitos críticos afirmam terem sido inspirados no samba brasileiro. A faixa é um exemplo da mudança de sonoridade do grupo, com o som mais funkeado, e cheio de balanço. 

Normalmente, “You Fool No One” era uma das músicas executadas ao vivo em que o Deep Purple improvisava mais. Chegando às vezes até a 20 minutos de duração. 

“What’s Goin’ On Here”, um típico hard rock do Deep Purple, destacado pela “quase conversa” entre os vocais de David Coverdale e a guitarra de Ritchie Blackmore, com a levada de um piano de blues marcado por Jon Lord, e novamente o duo vocal entre Coverdale e Glenn Hughes. 

Mais uma composição entre Coverdale e Ritchie Blackmore, “Mistreated”, no destaque os riffs, frases e solos, além de um dos melhores vocais de David no álbum. Blackmore havia escrito parte da música para o álbum “Machine Head”, mas só foi aproveitada em “Burn”. 

O álbum fecha com a canção instrumental, “A 200”, o título da faixa é o nome de um medicamento usado para “chato” (um piolho dos pelos pubianos). Um destaque da faixa é o uso de sintetizadores por Jon Lord dando uma aura espacial a canção. 

“Burn” mantém a sonoridade hard rock do Deep Purple. Mas ao mesmo tempo inaugura uma fase com a inserção de novos elementos. Como por exemplo, o R&B, funk e a soul music, que vão fazer parte dos próximos álbuns, “Stormbringer” e “Come Taste The band”. 

Fonte: Som de peso.