The Beatles: a genialidade da música “I Am The Warlus”, cheia de psicodelismo e influências literárias.

“I Am The Warlus”, nasceu sob influência de ácido lisérgico e obras literárias.

Por Sandro Abecassis

O ano de 1967, é dos mais significativos para Os Beatles, a banda havia lançado o épico “Sgt. Pepper Lonely Hearts Club Band” em junho, em 27 de agosto morria Brian Epstein e John, Paul, George e Ringo, tinham que seguir o longo caminho para dar continuidade a sua carreira.

Em abril daquele ano, antes do lançamento do “Pepper”, Paul já tinha mostrado ao empresário Epstein seu esboço do filme “Magical Mystery Tour”, em um gráfico circular do roteiro do filme. Brian interrompia Paul, pensando no custo de um filme baseado em uma tour fantasiosa, que tinha como personagem Ringo e sua tia Jesse, e as viagens da banda com uma trupe dentro de um ônibus. 

O projeto teve uma pausa para o lançamento do “Sgt. Pepper” e só sendo retomado após a morte de Brian. O filme, “Magical Mystery Tour” virou uma bola fora dos Beatles, admitida até por Paul McCartney anos mais tarde. 

No entanto, a trilha sonora é um caso a parte, com canções que se tornaram clássicas, como por exemplo, “Hello, GoodBye”, “Penny Lane”, “Your Mother Should Know”, “Strawberry Fields Forever”, “The Fool On the Hill” e a psicodélica “I Am The Warlus”.

Então, vamos falar de “I Am The Warlus”

A canção composta por John Lennon começou a ser gravada em 5 e setembro de 1967, apenas 9 dias após a morte de Brian Epstein. A música tem uma letra cheia de referências para diversos assuntos, inclusive, sobre o luto que viviam pela morte do empresário, na frase, “I´m Crying” (estou chorando). 

Por anos se especulou quem seria o tal “Eggman” que John Lennon cita e aparece vestido no videoclipe de “I Am The Warlus”. A homenagem era para Eric Burdon, o vocalista do Animals era apelidado de “Eggs”, porque durante suas farras de sexo gostava de quebrar ovos sob mulheres nuas, em uma das orgias em Mayfair. No livro “Many Years From Now”, de Barry Miles, consta que John teria dito para Burdon, “Vá fundo Eggman, Já fiz isso antes, é bom”. 

Uma outra curiosidade sobre a canção, John Lennon descobriu através do amigo de adolescência Pete Shotton, que um professor da Quarry Bank School, onde ele estudou e “foi convidado a se retirar”, estava usando as músicas e letras do “Sgt. Pepper” em suas aulas. 

Sendo assim, fato considerado um dos motivos que Lennon fez uma letra tão solta e sem sentido para alguns, zoando com a Quarry Bank. Como por exemplo nas frase soltas que usavam quando eram adolescentes:

 Yellow matter custard”, (Amarelado creme), “Crabalocker fishwife, Pornographic priestess” (Esposa do caçador de caranguejo. Freiras pornográficas), “Corporation T-shirt, stupid bloody Tuesday’ (Corporação consulta, estúpida maldita Terça-feira.)

Outro exemplo está no versos soletrado propositadamente,I-am-he as you-are-he, “Mis-ter cit-y police-man”, ao mesmo tempo estes versos fazem referência a uma sirene de polícia que John ouviu, assim como em solidariedade a Mick Jagger e Keith Richards que sofriam perseguição da polícia. Portanto, a frase “Semolina Pilchard”, é uma tiração de sarro com o inspetor de polícia, Norman Pilcher, considerado um dos cabeças na busca por prender astros de rock.

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Lennon mandou uma carta irônica para o Quarry Bank, Veja transcrita para o português:

Caro Stephen,

Como o Quarry Bank nunca foi um colégio muito bom, a mudança parece OK – OK? Que tal me enviar um exemplar dessa revista. Respostas – Tudo que eu escrevo sempre foi para dar risada ou me divertir ou como você quiser chamar – faço para mim em primeiro lugar – o fim que as pessoas dão a isso depois é válido, mas não tem necessariamente de corresponder ao que eu penso a respeito. OK? Isso vale para quaisquer livros, “criações”, arte, poesia, canções, etc. – o mistério e a merda que são construídos à volta das formas de arte precisam ser destruídos, enfim – deve ser óbvio pelas tendências atuais. Disse o suficiente.

A canção Mr. Kite saiu quase palavra por palavra de um antigo cartaz de espetáculo, inclusive os “Hendersons”. Pablo Fanque era o nome do circo. Não, não é aquele Sr. Slears das canetas coloridas. Lembro-me de sprechen se deutsch muito bem – porém sem lhe dar presentes – mas pode ser verdade. O Sr. Burton (Inglês) continua lá? – se sim mande lembranças – ele era um dos únicos professores que me entendiam e vice-versa. Russo, é? Não no meu tempo – como progredimos – não me diga que hoje deixam entrar na Calder para aulas de Prática. Getting Better reflete nossos pontos de vista (de Paul e meu). Acho que me perguntaram vagamente há anos se eu gostaria de voltar e dar uma olhada – mas já vi o suficiente quando estive lá – tenho boas lembranças – porém não tão boas! Tenho a mesma dificuldade que você ao escrever – mas a resposta é: deixe sair.

Com amor, John Lennon

P.S.: Não quero dar início a uma corrida de cartas dos homenzinhos do Quarry – então lide com ela com jeitinho, como se diz na “Londres Dançante”. Mas diga um oi para qualquer um daqueles professores (o termo não é bem esse). Mesmo Pobjoy, que me levou à faculdade de arte para eu fracassar lá também. Meus agradecimentos a ele nunca serão suficientes.

O “Elementary Penguin” que cantava Hare Krishna na canção tira um sarro de Allen Ginsberg. O escritor recitava mantras durante algumas apresentações, além do mais, Lennon também cita Edgar Allan Poe. 

A canção é tão nonsense que a gravação contém um trecho da peça “Rei Lear”, de William Shakespeare, gravada por Lennon durante uma transmissão da BBC. Neste período o uso de LSD por John era muito comum.

O dia que Elton John ajudou na reconciliação entre John Lennon e Yoko Ono.

Mas afinal, quem era o “Warlus” (Morsa). No livro Anthology, John esclarece:

“Ela teve inspiração no poema “The Warlus And The Carpenter”, um poema de Lewis Carroll em Alice no país das maravilhas. “Eu sou a Morsa, é apenas poesia e passou a me simbolizar. Warlus está apenas expressando um sonho, as palavras não significam muita coisa. As pessoas tiraram tantas conclusões ridículas. O tempo todo eu estava de brincadeira”. Conforme disse John.

Warlus ainda seria citado em duas canções, “Glass Onion” do Álbum branco, onde Lennon diz que O Warlus era o Paul, e “God”, da sua carreira solo, canta que ele era o Warlus. 

Os arranjos de George Martin para música contaram com uma orquestra de 8 violinos, 6 violoncelos, uma clarineta, bem como, 3 trompas. Além dos vocais do grupo Mike Sammes Singers.

O vídeo promocional traz os Beatles interpretando a canção, ora com roupas psicodélicas, outra vestido de animais. Além dos “eggmans” dançando, os policiais em cima de muro. Por fim, uma cena que quase passa despercebida é um dos “eggman” do videoclipe com um bigodinho de Hitler. A locação aconteceu em West Mailing airfield em Kent.