Gerson Conrad revela a história da canção, “Rosa de Hiroshima”.

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Músico revelou detalhes de “Rosa de Hiroshima” durante um bate papo em Curitiba.

No dia 23 de fevereiro, o músico Gerson Conrad, que integrou o grupo Secos & Molhados junto com Ney Matogrosso e João Ricardo, deu uma entrevista para a rádio Educativa de Curitiba, no programa Papo educativa. 

O músico mora na capital paranaense por conta de um reencontro com um amor perdido há mais de 50 anos. 

“Eu havia namorado quando tinha 19 anos de idade uma bailarina que participou de um espetáculo que eu fazia direção musical. Isso em 1971, antes do estouro do Secos & Molhados. Namoramos um tempo nessa época até que começou aquela loucura dos compromissos com o Secos & Molhados e quando eu me toquei fazia uma semana que eu não via a Gisele, e quando fui na casa dela, a família tinha se mudado para Curitiba um dia antes e a gente perdeu contato durante 50 anos”. Conforme contou.

Gerson Conrad revela a história da canção, "Rosa de Hiroshima".
Gerson Conrad.

Portanto, como na época a comunicação era difícil o casal se separou. Gerson fez sucesso com o Secos & Molhados, trabalhou com diversos outros artistas. Se casou, e depois separou, e aconteceu o inesperado há cerca de dois anos, segundo diz:

“Eu tive a oportunidade de ser contatado por um dos atores que havia participado desta mesma montagem quando eu conheci Gisele, e ele perguntou por ela e eu falei que tinha meio século que eu não sabia dela. Ele falou, procura no facebook, de repente tem o telefone. E por acaso eu consegui, escrevi para Gisele ela demorou 5 dias para responder. Ela me convidou para conhecer onde ela morava e eu tinha um show em Porto Alegre, ela perguntou se eu já tinha o voucher do hotel, eu dei o nome do hotel e quando eu cheguei ela estava no saguão me esperando. E aí a gente tem se entendido neste últimos dois anos”

O nascimento do Secos.

Gerson Conrad revela a história da canção, "Rosa de Hiroshima".

Acima de tudo, Gerson contou sobre o nascimento do Secos & Molhados no período do governo militar e também da estagnação cultural.

“De 1969 até o início dos anos 70 a gente estava sem nenhum tipo de novidade no mercado, em termos de música, teatro, nada tava acontecendo. E foi aí que nasceu o Secos & Molhados, eu era um estudante de arquitetura, e João Ricardo era filho de um intelectual português e com a chegada do Ney veio nos dar uma condição muito especial naquele momento em relação aos jovens da mesma idade. Nós viemos com um domínio linguístico que não existia naquela época”. 

Conrad lembra que o aspecto de teatralização era inspirado sobretudo, no tropicalismo. “Nós trouxemos aquela alegria do tropicalismo que estava escondida desde o final dos anos 60, a gente trouxe um colorido aos dias cinzentos do militarismos daquela época”. 

E completou sobre a origem da maquiagem: “Eu e o João Ricardo já estávamos estudando o uso da maquiagem no teatro japonês mas não sabíamos o que íamos fazer. E a proposta da maquiagem acabou tomando corpo com a chegada do Ney em 1971. Ele comentou que era uma pessoa muito tímida, e que ia usar de algum recurso.

O Ney atuava como ator em uma peça e em uma das primeiras apresentações  do Secos não deu tempo dele tirar a maquiagem e subiu  no palco com aquelas pastas no rosto, e a Luli sugeriu dele colocar purpurina para dar um brilho. Ele jogou brilho no rosto e a gente automaticamente o acompanhou. E aquilo foi um choque grande para as pessoas, e no dia seguinte virou matéria de jornal”. 

Gerson Conrad revela a história da canção, "Rosa de Hiroshima".
João, Ney e Gerson.

“Eles não entenderam absolutamente nada”.

Respondendo a questão se eles não foram perseguidos pelo regime militar, Gerson comentou.Eu tenho impressão que eles não entenderam absolutamente nada, por isso não nos perturbam muito”.

Apesar de tudo, Gerson conta que mesmo assim os shows passavam por uma aprovação da censura. “Cada praça que você chegava tinha que ter uma censura local, que era uma loucura, e isso era muito desgastante. Eles marcavam e a gente era obrigado a fazer uma apresentação particular para o censor. Então, ele aprovava ou não o espetáculo, nunca tivemos a condição de não ter sido aprovado.”

A origem de Rosa de Hiroshima.

A canção, “Rosa de Hiroshima”, foi lançada no álbum “Secos & Molhados” em 1973. Gerson Conrad musicou o poema de autoria de Vinícius de Moraes, e contou sobre como ela surgiu.

“Chegou naquela época um livreto nas mãos de João Ricardo, chamado, “Antologia poética de Vinicius de Moraes”. Ele me deu para eu dar uma olhada para ver se tinha algo interessante. Eu joguei em cima da minha área de trabalho, a minha escrivaninha e coincidentemente ele caiu aberto exatamente onde estava o poema, “Rosa de Hiroshima”. 

Gerson conta o impacto que teve quando leu o poema. 

“Trata-se de uma temática universal, a explosão da bomba em Hiroshima, e tinha tudo a ver com o contexto do Secos & Molhados naquele momento, que era um grupo muito politizado mas não partidário. Eu acordei com aquele poema na cabeça, meu violão estava do lado, e eu queria compor quase que o oposto, como uma caixinha de música, muito doce, que enfatizava por si só a mensagem que era mais importante, o poema do Vinicius”

Conrad mostrou ao Ney e João Ricardo e eles adoraram. A banda tinha um compromisso em um programa na TV Bandeirantes, quando teve a oportunidade de se encontrar com Vinicius de Moraes.

“Quando estávamos no camarim alguém bateu à porta e disse que o Vinicius e Toquinho estavam no camarim ao lado. Eu peguei meu violão, bati na porta do camarim e falei pro Vinicius, `olha eu estou começando com um grupo ainda não tão conhecido, chamado Secos & Molhados`e eu gostaria da tua autorização para poder gravar uma música que eu fiz em cima de um poema seu. Ele perguntou, `Que poema você musicou?” Eu disse: Rosa de Hiroshima. Na hora ele segurou no meu braço e falou, `sente-se aí e toque`. Aí eu toquei, não cheguei a terminar, os olhos dele se encheram de lágrimas. Mas ele profetizou uma coisa que realmente iria acontecer, “Menino, tenha certeza que sua música vai eternizar meu poema”. 

Contudo, Vinicius contou a Conrad que ele tinha uma mágoa porque esse poema ele havia escrito no final dos anos 40 quando era diplomata e que pouquíssimos intelectuais conheciam.

“Rosa de Hiroshima” se tornou a terceira mais tocada no Brasil em 1973. Sendo assim, em 2009 a revista Rolling Stone elegeu a música entre as 100 melhores canções da MPB. 

Por fim, para ver a entrevista completa, confira o vídeo. E siga a Nave Criativa no Google Notícias.