A embrutecida sociedade de bem brasileira.

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A sociedade embruteceu física, moral e intelectualmente.

Lá estava eu com quatro batatas, dois tomates, duas cebolas, quatro cenouras e um abacate na vez da fila para pesar na balança do supermercado. Quando vou colocar as sacolas para o atendente pesar, chega um senhor, com umas cinco batatas em um saco, e — tóin! — põe o produto sem qualquer cerimônia na balança, passando na minha frente. Mal tenho reação, e ele diz:

— Tá com muita compra, vou passar na tua frente.
Respondi:
— Era só o senhor ter pedido que eu o deixaria passar.

A resposta:

— Muito mimimi — Pesou e foi embora, com a maior cara de pau, resmungando quase mastigando uma máscara que já não cobria o nariz.

O atendente disse pra mim que isso acontece a toda hora, dá briga até com socos. Como estou evoluindo para não brigar ou morrer por um simples lugar na fila, deixei o apressado passar.

No entanto, isso reflete o “embrutecimento” da sociedade, impaciente, ansiosa e raivosa, influenciada pelo comportamento dos seus ídolos e mitos, que falam o que querem, quando querem, sem se importar de ofender alguém.

O tal “mito” deu voz para essa gente: “Se ele pode agir do modo que age eu também posso” — como já ouvi. Quem era violento, racista, preconceituoso, machista e queria colocar tudo isso pra fora encontrou o aval para tal. De bobalhões com camisa verde-amarela, preferia o “Arakem, o showman”, da Copa de 86.

Outro fator importante: as redes sociais deram voz para todos, dos imbecis, moderados, aos que têm algo a dizer. Outro dia, uma simples postagem em meu perfil no Facebook sobre a preferência por um tênis gerou uma quase dissertação de alguém que não gostou da experiência que teve com esse objeto que serve para proteger os pés do calor, da água, e com que de vez em quando a gente pisa na bosta. Aí, por outro lado, temos que ter discernimento para evitar entrar em conflito, por mais que o foda-se pareça inevitável — confesso já entrei em alguns e me arrependo.

Medo

Hoje dá medo de sair de casa, dá medo de falar com as pessoas, porque, de repente, do outro lado, tudo vira preconceito, racismo ou machismo, estamos em um “mato sem cachorro”, será que esta expressão popular vai dar problema? Será pelo mato, ou pelo cachorro?

As pessoas não entendem mais vírgulas, conjunções adversativas, advérbios. Leem pouco nestes tempos de tanta informação, que por vezes é só lixo, feito para “divertir” ou para justificar nossa procrastinação. Interpretam mal e, por mais que a gente explique, você continua mau — entendeu o mal com L e o mau com U, criatura?

Rede cruel.

No entanto, a rede é cruel, sagaz, não perdoa, expõe imbecis de todas as formas, e até aqueles que produzem provas contra si, como o cidadão de bem que ofende o motoboy, o machista que condiciona o atendimento da caixa ao fato de ela não transar bem e muito. Bom, e lá vem mais história. Certa vez vi um consciente rapaz que faz uma “linda” ação de limpeza nos lagos da cidade agredir verbalmente a moça do caixa de um estacionamento.

Eram palavras baixas e pesadas, mas, apesar de esse rapaz já ter histórico de agressão contra as mulheres, comprovado por boletins de ocorrência, continua aí, ninguém vê, afinal, é amigão da galera.

Por fim, espero que a salada do cidadão tenha azedado. Contudo, não serei o responsável por azedar, mas a mocinha que distrai o tiozão rebolando a bunda freneticamente no TikTok.

Sandro Abecassis

Publicitário, radialista, pós graduado em educação inclusiva e gestão executiva de projetos.

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