Meus 10 rocks preferidos sobre política e crítica social.

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A arte sempre foi um meio para a construção de uma crítica social, e através da música, e principalmente do rock, este efeito se potencializou. 

Os anos pós guerra, muros sendo erguidos, ditaduras totalitárias nascendo em basicamente todos os continentes, desemprego, racismo, assassinatos, iminência de um ataque nuclear, terrorismo, era o cenário desde os anos 50 até o começo da década de 90.

Um mundo que dava argumentos para roqueiros expressarem através de canções sua indignação e de certa forma criando em que ouvisse, um despertar para o questionamento.

Eu tenho uma lista particular de músicas que ativam este despertar, e me fizeram prestar mais atenção em tudo à minha volta, no âmbito social e político. 

São apenas dez, mas tem muito mais. Óbvio, que algumas destas canções  foram lançadas quando eu ainda não tinha nem nascido, no entanto, arte é sempre atemporal. 

Vamos a lista:

Pink Floyd – In the Flesh 

A faixa que abre o clássico álbum The Wall, do Pink Floyd,lançado em 1979, é uma reflexão do que hoje vejo, roqueiros reacionários, que cantam músicas de seus ídolos sem talvez entender nada do que as bandas falam. 

Em “In the Flesh”, em português “na carne”, Roger Waters através de um tom irônico personifica um “reaça”, como diz parte da letra: 

“Há alguma bicha aqui esta noite?

Ponha-os contra o muro”.

ou

“Aquele parece ser judeu!

E aquele é um crioulo!

Quem deixou essa gente entrar?” 

Mas para quem não sabe, a letra nasceu de uma autocrítica, porque de repente ao perceber no que o Pink Floyd estava se tornando, um sucesso gigante, Roger Waters se viu meio transformado em uma espécie de tirano, parou, pensou e fez a letra.  

Legião Urbana – Fábrica

Os anos 80 foram um período péssimo para o Brasil, apesar do fim da ditadura militar. Inflação em torno de 40% ao mês, desemprego, planos econômicos sem sentido, este era parte do cenário. 

Terminar o segundo grau e ir em busca de emprego para um adolescente sem experiência nessa época era terrível, na maioria dos casos. Ou você se tornava office boy ou chapeiro de lanche, fui os dois com jornadas árduas. 

”Fábrica” serviu durante um bom tempo como trilha sonora para este período, a estrofe inicial diz tudo:

“Nosso dia vai chegar

Teremos nossa vez

Não é pedir demais

Quero justiça

Quero trabalhar em paz

Não é muito o que lhe peço

Eu quero o trabalho honesto

Em vez de escravidão”

The Clash – London Calling

Atualíssima, “London Calling”, nasce quando no final dos anos 70, na Inglaterra, houve um forte renascimento de uma extrema direita e do conservadorismo, a canção e o movimento punk se tornaram uma antítese a este sistema. 

Nestes anos de pandemia, e novamente nascimento de uma direita raivosa, a canção de Joe Strummer continua como uma chamada às frentes de oposição diante, sobretudo, de governos autoritários. 

Paralamas do Sucesso – Selvagem

Ao ouvir frases como, “No Brasil, não existe racismo”, ou “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, lembrei imediatamente da música, “Selvagem”. dos Paralamas do sucesso, faixa do álbum “Selvagem?”, lançada em 1986, as letras, bem, falam por si só:

“Os negros apresentam suas armas

As costas marcadas, as mãos calejadas

E a esperteza que só tem quem ‘tá

Cansado de apanhar”

ou

“A cidade apresenta suas armas

Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos

E o espanto está nos olhos de quem vê

O grande monstro a se criar”

No Brasil, não só existe racismo, como também brotou sem nenhum pudor aqueles que acham normal dizer, “não gostar de preto”, com o argumento da tal liberdade de expressão, no entanto, estão também na lista, indígenas, mulheres, LGTBQI+ e  nordestinos. 

Beatles – Blackbird

Lógico que na minha lista não poderia faltar Os Beatles. Vamos de “Blackbird”, esta canção sutil de Paul McCartney lançada no Álbum branco de 1968. 

A música nada tem a ver com um pássaro. Paul quis homenagear uma mulher negra americana que sofria segregação racial e lutava pela garantia dos direito civis. Além disso, Martin Luther King havia sido assassinado recentemente e isto também serviu de inspiração para o Beatle.

“Pegue estes olhos fundos e aprenda a enxergar

Durante toda a sua vida

Você só estava esperando pelo momento de ser livre”

A reflexão é, o fã dos Beatles que continua apoiando um governo como o de Bolsonaro…simplesmente não entendeu nada das letras e até seria capaz de colocar na sua narrativa o fato de John Lennon realmente estar feliz em ter uma arma fumegante, título da canção. “Happiness is a warm gun”, não entendendo o sentido sexual do título. 

Titãs – Porrada

O Álbum, “Cabeça dinoussauro”, dos Titãs, inaugura a fase da banda de um rock mais pesado e com letras pautadas na crítica social. Contudo, não foi só a situação política do Brasil naqueles anos de 1986 e 87, que colaborou para a construção do álbum. Mas também, a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por porte de heroína, servindo de inspiração para composições como, por exemplo, “Polícia”, “Bichos escrotos” e “Estado violência”,  criticando claramente o poder do estado e o status social.

No entanto, o meu destaque vai para a música, “Porrada”, composição de Arnaldo Antunes cheia de ironias, “Bonificações para os bancários, congratulações para os banqueiros”, naquela época era comum greves dos funcionários de banco, o sindicato era muito forte, o Brasil parava quando eles paravam.

O refrão entoava, “Porrada, nos caras que não fazem nada”, de certa forma a música significou muito pra mim, meu tio era bancário, e logo no começo dos anos 90 eu também comecei a trabalhar em banco. Essa canção me vinha na cabeça o tempo inteiro, principalmente quando pagava as diferenças de caixa. 

Supertramp – Fool’s overture

Ouvi Supertramp pela primeira vez em 1982, quando tinha 10 anos, o álbum, Live Paris, fiquei maravilhado, com “Dreamer”, “Hide your shell”, “Logical song”, “A soapbox opera”. Logo depois ganhei de presente o recém lançado, “Famous last words”, ali começava meu interesse pela língua inglesa, e para além do cursinho eu tentava decifrar as letras. 

E alguns destes versos do Supertramp me chamavam mais atenção, era a de Fool’s overture. Este clássico progressivo trazia discurso de Winston Churchill, sons de sirene e do Big Ben, com alusão a segunda guerra, e uma letra sobre heróis e tolos, Tarde demais, os profetas choram. A ilha está afundando, vamos para o céu”, conforme dizia um dos trechos. 

A quase opera remetia o quanto a guerra é idiota, e ali em 1982 em território sul americano se iniciava uma, justamente a Inglaterra contra a Argentina no caso das Malvinas. Por conta disso iniciava também um outro interesse meu, pela História. 

Bob Dylan – Jokerman

Acima de tudo, começo com uma polêmica, prefiro a versão de Jokerman do Caetano Veloso a original do Bob Dylan! 

Contudo, versões à parte, a letra – que sei cantar toda – é um passeio por referências sejam bíblicas ou da história se fundindo. 

Quando Caetano cantou Jokerman no show do álbum “Circuladô” em novembro de 1991, o Brasil – novamente – vivia um período complicado, Collor no governo, confisco de poupança, crises, e meses depois veio a tona o caso de corrupção gerando um processo de impeachment e a renúncia do presidente. 

O disco do Caetano pra mim foi uma trilha sonora deste período, e “Jokerman”, simbolizava esta transição, 

“Nightsticks, and the water cannons, tear gas, padlocks, molotovs cocktails, and rocks, behind every curtain”

Os caras pintadas na rua, o brasil com panos pretos nas janelas, e a minissérie, “Anos rebeldes” no ar na TV globo.

Chuck Berry – School

Nunca fui um bom aluno, mas sempre gostei de literatura, história, redação, geografia e aspectos sociais. Eu aprendi de uma forma muito particular, lendo por mim mesmo, ouvindo minha mãe, tio, não conseguia acompanhar o modelo, e só tomava bomba. 

Química então nem se fale, só me ajudou a conseguir uma namorada. A música School do Chuck Berry, era como se fosse um carimbo para esta inquietação:

Assim que as 3 horas passarem, você finalmente larga seu fardo.

Feche seus livros e saia de seu assento, passando pelos corredores e indo para a rua”

Secos e Molhados – Primavera nos dentes

Um dia minha mãe me apresentou uma banda chamada, “Secos & Molhados”, para um adolescente aquilo foi como uma abertura de mente. Decifrar as capas, entender o que estava por detrás da dança e adereços de Ney Matogrosso…e a música, de um folk hippie e principalmente, um blues desesperado e esperançoso

Primavera nos dentes depois da longa introdução trouxe isso, nos seus apenas oito e profundo versos:

“Quem tem consciência para ter coragem,

Quem tem a força de saber que existe,

e no centro da própria engrenagem

inventa a contra a mola que resiste”

“Quem não vacila mesmo derrotado,

quem já perdido nunca desespera,

e envolto em tempestade, decepado

Entre os dentes segura a primavera”. 

Por fim, para você que tem 18 anos ou 50 e está saindo pra vida… então, voe na minha trilha sonora. 

Sandro Abecassis

Publicitário, radialista, pós graduado em educação inclusiva e gestão executiva de projetos.

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